Homens estão cada vez mais preocupados com a saúde do esperma e empresas lucram com essa tendência
Empresas do setor de bem-estar têm impulsionado a crescente procura por produtos voltados à fertilidade masculina, oferecendo desde suplementos até kits para testes de esperma.
Julian Prosia, optometrista de 31 anos de Waterloo, Ontário, levava um estilo de vida saudável quando, junto com a esposa, começou a planejar a chegada de um filho. Nessa época, ele começou a consumir conteúdos nas redes sociais sobre a importância de melhorar a qualidade do esperma.
Influenciadores digitais destacavam a necessidade de os homens adotarem hábitos para aumentar a fertilidade, como exercícios para elevar a testosterona, alimentação equilibrada, suplementação e redução do consumo de álcool. Motivado por essas informações, Prosia passou a tomar vitaminas diariamente, intensificou seus treinos e cortou o álcool, o que resultou na gravidez da esposa em poucos meses.
“Nas primeiras tentativas de gravidez, há muito estresse”, comentou ele. O casal frequentemente se perguntava se ele realmente tinha fertilidade suficiente para conceber.
O conceito de se preparar fisicamente no período conhecido como “trimestre zero” — meses que antecedem a concepção — é uma tendência que vem crescendo, especialmente entre mulheres, que historicamente carregam o maior peso no planejamento da fertilidade. Atualmente, esta conscientização começa a atingir mais homens também.
Com esse aumento do interesse cultural pela saúde do esperma, marcas de produtos para o bem-estar têm explorado o mercado, lançando uma variedade de suplementos e kits para testes em casa.
A empresa Perelel, especializada em suplementos para saúde feminina, ampliou seu portfólio em 2021 para incluir um pacote de vitaminas masculinas, que se tornou rapidamente um dos produtos mais procurados pela marca. Da mesma forma, a Bird&Be, outra marca de fertilidade, revelou que atualmente os produtos masculinos representam mais de 30% de suas vendas.
Segundo Samantha Diamond, cofundadora e CEO da Bird&Be, quando a empresa foi criada, essa demanda masculina ainda não existia.
A Bird&Be oferece dois tipos de suplementos para homens, com preços entre US$ 63 e US$ 78 para um mês de uso, ou descontos para assinaturas. Também comercializa kits de teste para fertilidade a partir de US$ 99, vendidos tanto pelo site quanto, desde o ano anterior, em lojas da Ulta Beauty. Testes clínicos realizados pela empresa indicam que seus suplementos pré-natais masculinos melhoram significativamente a motilidade dos espermatozoides — ou seja, a capacidade de movimento das células reprodutoras.
Nas redes sociais, companhias como Bird&Be, FullWell e Needed anunciam pacotes de suplementos focados em fertilidade para homens e mulheres. Por exemplo, influenciadora Caelynn Bell, que participou do reality show “The Bachelor”, promoveu um kit da Perelel para casais se prepararem juntos para a paternidade.
Outra marca, SwimClub, dedicada a suplementos para fertilidade masculina, direciona sua comunicação tanto para homens quanto para mulheres. Entre seus slogans estão frases como “Você não compensa esperma ruim com mais ovulação” e “Não deixe a concepção ao acaso”.
Osman Khan, cofundador da SwimClub, descobriu ter baixa contagem de espermatozoides durante uma tentativa sem sucesso de fertilização in vitro (FIV). Ele recebeu recomendações médicas para tomar multivitamínicos, melhorar a dieta e evitar álcool. Com o apoio da esposa, criou seu próprio conjunto de suplementos, tendo a qualidade do esperma melhorada, o que resultou na concepção do bebê por meio da FIV.
Essa experiência motivou Khan e seus sócios a colaborarem com o Dr. Michael Eisenberg, urologista e chefe do programa de Medicina Reprodutiva Masculina da Universidade de Stanford, para desenvolverem um pacote de suplementos comercial. Eisenberg atua como consultor médico da SwimClub. O conjunto custa cerca de US$ 300 e oferece 90 dias de tratamento diário.
Investimentos em startups de fertilidade masculina
Empresas emergentes focadas em fertilidade masculina receberam US$ 121 milhões de investidores de capital de risco no último ano, conforme aponta o banco de dados PitchBook. Entre elas está a Sperm Racing, que em 2025 promoveu um evento chamado “corrida de espermatozoides” no Hollywood Palladium, em Los Angeles.
A Sperm Racing arrecadou US$ 11 milhões e lançou um suplemento em formato de goma chamado Sperm Worms, atualmente em pré-venda. Seu site utiliza um tom irreverente, afirmando: “Seu avô ficaria envergonhado dos seus garotos”. O empresário Eric Zhu, cofundador com apenas 18 anos, planeja também lançar roupas íntimas com foco na saúde do esperma.
Preocupação com a queda da natalidade
A redução nas taxas de fertilidade, com níveis historicamente baixos nos Estados Unidos nos últimos anos e tendência estável ao longo das últimas cinco décadas, tem levantado questionamentos sobre o possível declínio populacional. A Organização Mundial da Saúde informa que cerca de 1 em cada 6 pessoas no mundo enfrentam infertilidade, o que alimenta um crescente sentimento de apreensão.
Durante o governo Trump, medidas foram adotadas para combater a diminuição da taxa de natalidade. Trump chegou a se autodenominar o “presidente da fertilização”, enquanto o vice-presidente JD Vance expressou o desejo de “tornar a América fértil novamente”, aguardando seu quarto filho com a esposa Usha.
O bilionário Elon Musk, conhecido pela vasta descendência com pelo menos 14 filhos, tem alertado há anos para essa “crise de bebês”. Entre as iniciativas recentes estão as chamadas “Trump Accounts”, que disponibilizam US$ 1.000 em fundos federais para crianças nascidas entre 2025 e 2028.
Além disso, diversos podcasts focados em bem-estar masculino têm dedicado episódios exclusivos à fertilidade dos homens. Gary Brecka, defensor do movimento “Make America Healthy Again”, realizou dois episódios sobre o tema em poucos meses, enfatizando que “os homens precisam se preparar para a gravidez tanto quanto as mulheres”.
O médico Mark Hyman apresentou um episódio intitulado “Por que a fertilidade masculina está colapsando e o que isso significa para o nosso futuro”, com participação do Dr. Eisenberg. Outro especialista, o urologista reprodutivo Paul Turek, afirmou em um podcast que “o esperma importa muito”.
Essa preocupação resultou em um cenário em que a saúde do esperma virou até mesmo objeto de orgulho. Bryan Johnson, empreendedor focado em longevidade, compartilhou no X que sua qualidade espermática “é equivalente à de um jovem saudável de 20 anos”.
Johnson relatou que, em uma recente reunião com CEOs influentes, o tema da saúde do esperma foi destaque e que deseja ajudar a desmistificar o assunto, aumentando o entendimento sobre as funções biológicas do corpo.
Na famosa corrida de espermatozoides em Los Angeles, homens doaram amostras para competir em uma pista microscópica, com um público torcendo enquanto uma simulação digital transmitia a competição.
Médicos notam essa conscientização aumentando entre seus pacientes masculinos. Dr. Bobby Najari, diretor do programa de infertilidade masculina da NYU Langone, relata que mais homens o procuram já produzindo uso de suplementos mesmo antes de consultas.
Entretanto, ele não recomenda o uso rotineiro dos chamados “pré-natais masculinos”, destacando a insuficiência de pesquisas no segmento masculino e a dificuldade em identificar produtos eficazes em um mercado pouco regulado, já que suplementos não dependem de aprovação da Food and Drug Administration (FDA).
“Vejo algum benefício indireto quando o homem se sente mais participativo, como se estivéssemos juntos nessa jornada, mesmo que seja por aspectos não tão clínicos”, comentou Najari.
Outro exemplo é Pav Stojkovic, morador de Los Angeles que, ao tentar engravidar com a esposa, descobriu ter varicocele, uma condição comum que prejudica a qualidade do esperma. Enquanto os exames e tratamentos focavam principalmente na mulher, ele teve que tomar medidas como cirurgia, banhos mornos, redução de exercícios cardiovasculares e uso de suplementos.
Apesar dos esforços, a gravidez só ocorreu após um ajuste no protocolo médico e a realização de fertilização in vitro.
Stojkovic observa que muitos homens não se envolvem no processo, segundo relatos que vê em fóruns online sobre fertilização in vitro. Seu conselho é realizar exames de esperma para ter dados concretos em mãos.
O artigo foi originalmente escrito por Sara Ashley O’Brien e traduzido do inglês.



