Selic Mantida Com Espaço Para Corte Em Março, Diz BC

Selic Mantida Com Espaço Para Corte Em Março, Diz BC

Banco Central deve manter a Selic, mas fatores indicam possibilidade de queda em março

A economista Andrea Bastos Damico, CEO da Buysidebrazil, avalia que o Banco Central (BC) deve preservar a taxa Selic na próxima decisão, mas já sinalizará um possível corte para o mês de março. A especialista destaca que três aspectos principais sustentam essa perspectiva: o cenário global de desinflação, o fortalecimento do real diante do dólar e o processo contínuo de queda da inflação interna no Brasil.

Cenário global ainda favorável, apesar das incertezas

Embora o início de 2026 traga maior instabilidade internacional, devido a episódios como a atuação do governo Trump na Venezuela e as tensões envolvendo o Irã, o ambiente global continua com tendência desinflacionária. Andrea Damico ressalta que, apesar das novas incertezas, a exportação de desinflação pela China, especialmente em bens manufaturados, e a fraqueza do dólar são fatores que ajudam a conter a inflação nos países emergentes, incluindo o Brasil.

Câmbio favorável e impacto na inflação

Outro ponto destacado pela economista é o desempenho da moeda brasileira, que agora opera abaixo de R$ 5,30 por dólar. Este patamar contribui para um cenário inflacionário benigno. Embora o relatório Focus ainda projete um dólar próximo de R$ 5,50, a valorização atual do real oferece ao BC um ambiente mais confortável para começar a indicar a possibilidade de redução da taxa de juros, uma vez que o câmbio conta a favor e não contra a inflação.

Desinflação interna e desaceleração econômica

Na esfera doméstica, Damico destaca que os núcleos de inflação apresentam índices mais favoráveis, situados entre 3,5% e 4%, enquanto os serviços subjacentes ainda mantêm níveis elevados, mas com tendência de queda. A economista observa que, apesar de um aumento temporário nos dados ocasionado pela Black Friday, a tendência geral da atividade econômica permanece em desaceleração.

Ela explica que há uma certa distorção nos dados de novembro e dezembro devido ao comportamento dos preços durante as promoções da Black Friday, o que gera volatilidade. Contudo, de modo geral, o Brasil vive um processo consistente de desinflação, com preços de alimentos permanecendo relativamente estáveis, ainda que se espere alguma recuperação ao longo do ano.

Aspectos que merecem atenção pelo Banco Central

Apesar das sinalizações positivas para a redução da Selic, Andrea Damico identifica dois pontos que o BC deve monitorar de perto: a situação do mercado de trabalho e a velocidade da reancoragem das expectativas de inflação. O diretor do BC, Paulo Picchetti, comentou que o mercado laboral aquecido não é preocupante desde que não gere pressões inflacionárias. No entanto, o aquecimento do emprego, mesmo diante de uma taxa de juros restritiva, surpreende e ainda carece de explicações claras.

Além disso, a economista ressalta que, apesar de quedas relevantes nas expectativas de inflação terem ocorrido nas últimas reuniões, elas foram modestas. O período de digestão das incertezas globais e da dinâmica inflacionária em um cenário ainda desinflacionário demanda tempo para que as expectativas se ajustem plenamente.

Como o Banco Central pode sinalizar a possibilidade de corte da Selic

De acordo com Andrea Damico, o BC provavelmente evitará se comprometer formalmente com um corte em março, optando por deixar aberta a possibilidade de iniciar um ciclo de redução da taxa. Ela sugere que o comunicado da autoridade monetária nesta semana poderá ter sua linguagem suavizada, por exemplo, removendo o trecho que afirma que o BC “não hesitará em retomar o ciclo de alta dos juros”. Essa mudança diminuiria o tom de alerta sobre eventuais elevações futuras.

Outra alternativa para o Banco Central seria adotar uma comunicação mais dependente dos dados (data dependent), indicando que as decisões seguintes serão condicionadas à trajetória da inflação, às expectativas e à avaliação dos riscos.

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