Super-ricos optam por Hong Kong em vez de Dubai devido à guerra e tensão no Golfo
Milionários estão considerando transferir seus investimentos para a Ásia, já que autoridades locais oferecem incentivos como impostos baixos, uma vasta gama de talentos e um mercado de ações em franca expansão, em uma tentativa de Hong Kong recuperar seu prestígio frente à instabilidade do Oriente Médio.

O CEO da GACS, Anmol Goel, que lidera um family office baseado em Londres, contou que sua empresa tinha planos de abrir um escritório nos Emirados Árabes Unidos este ano para atuar junto aos gestores financeiros que se concentraram no Golfo. No entanto, com o início da guerra, os planos precisaram ser revistos.
Goel explicou que estavam finalizando a formação de uma holding, a compra de ativos bancários e propriedades, mas a escalada do conflito o fez reconsiderar e buscar alternativas, levando-o a Hong Kong.
A guerra no Oriente Médio motivou os super-ricos a reavaliar Hong Kong, onde o governo tem adotado medidas para recuperar o interesse perdido nos últimos anos devido a protestos, controles políticos e restrições pandêmicas.
Com o objetivo de atrair novamente esse público, as autoridades locais destacam a estrutura de impostos reduzidos, a diversidade de profissionais qualificados e a expansão do mercado de capitais.
Esta semana, vários eventos demonstraram que Hong Kong vem ganhando força no cenário financeiro, principalmente porque investidores buscam alternativas a Dubai e Abu Dhabi, diante de uma guerra que permanece sem sinais claros de trégua.
Singapura também é apontada como possível beneficiária da fuga de recursos do Oriente Médio, embora muitas famílias ainda monitorem cuidadosamente seus portfólios antes de realizarem grandes mudanças.
Goel revelou que está analisando opções em Zurique, Singapura e Mumbai como locais de reserva. Ele ressaltou que, apesar da reputação desses mercados serem consideradas “monótonas”, essa estabilidade tem seu valor para os investidores.
A XinXi Asset Management, empresa focada em family offices, reporta que está auxiliando pelo menos sete clientes na transferência de mais de US$ 100 milhões em ativos de Dubai para Hong Kong. Segundo o CEO Joel Tan, houve interesse intenso e consultas recentes por parte de clientes chineses para vender propriedades no Oriente Médio. A empresa, inclusive, abandonou planos de abrir escritório em Dubai, apesar de já ter iniciado o processo de licenciamento, em função da guerra.
A recuperação do centro financeiro asiático pode ser vista no aumento de 25% no número de family offices, somando 3.384 até o final do último ano, cada um com, no mínimo, US$ 10 milhões sob gestão, conforme pesquisa realizada pela Deloitte e encomendada pelo governo local.
Christopher Hui, secretário de serviços financeiros e do tesouro de Hong Kong, informou em entrevista que o governo pretende ampliar incentivos fiscais para family offices e fundos, abrangendo diferentes classes de ativos. Além disso, notou-se um crescimento no número de convidados oriundos do Oriente Médio para a cúpula anual de gestão de fortunas.
O recorde de ofertas públicas iniciais na cidade no ano passado, que fez dela o principal polo mundial para listagens, gerou receitas significativas para os bancos de investimento. Os recursos captados localmente bateram um recorde em quatro anos em 2025 e começaram 2026 com forte desempenho.
Instituições financeiras de Wall Street e seus equivalentes regionais, como UBS Group, Citigroup, DBS Group Holdings e China Construction Bank, têm ampliado suas equipes em Hong Kong para competir por um mercado de riqueza privada avaliado em US$ 1 trilhão.
Paul Chan, secretário de finanças da cidade, destacou durante o Bloomberg Family Office Summit que reputação, confiança e estabilidade de mercado são fundamentais para o sucesso dessa movimentação.
Um bilionário presente no evento afirmou que Hong Kong recuperou parte da confiança que havia sido abalada durante os anos pandêmicos, quando o forte controle da China era visto como um fator limitante para o setor financeiro local.
Embora ataques recentes a Dubai possam atrair mais investidores para Hong Kong e Singapura, a distância dificulta a atração de milionários europeus de altíssimo patrimônio, segundo fontes que preferiram não se identificar devido à sensibilidade política.
Renovação de energia em Hong Kong
O bilionário Gildo Zegna, CEO da casa italiana de moda Ermenegildo Zegna, esteve em Hong Kong nesta semana com uma extensa agenda, que incluía jantares com clientes, encontros com investidores, visitas a lojas e participação na Art Basel, tudo em um intervalo de três dias.
Ele demonstrou surpresa com o tráfego e a vitalidade renovada nas lojas da cidade, além de filas em outlets de luxo próximos, observando que não presenciava tal movimento há algum tempo.
Outros especialistas em gestão de patrimônio em Hong Kong comentam que seus clientes estão atentos ao cenário, mas têm evitado realizar grandes transferências de ativos até o momento.
Elton Cheung, sócio-gerente do VMS Group, afirmou não ter observado mudanças significativas no apetite ao risco ou no comportamento das famílias atendidas.
Singapura também é vista como um destino potencial para captação de recursos oriundos do Oriente Médio, ainda que alguns milionários relutem em se mudar para lá devido a restrições rigorosas, incluindo proibições de narguilé, vaporizadores e fiscalizações severas de velocidade, o que contraria os hábitos de super-ricos que possuem veículos esportivos sofisticados.
A Malásia tem se tornado mais atrativa para diversas famílias graças à proximidade cultural e religiosa, com algumas mantendo bens registrados em Singapura, mas residindo em áreas próximas, como Johor ou Kuala Lumpur.
Se o conflito persistir, investidores podem buscar alternativas mais líquidas, fazendo com que fundos hedge se tornem opções mais interessantes para análise e investimento, segundo Cheung.
Além disso, Aaron Costello, chefe da Ásia da Cambridge Associates em Singapura, relatou um aumento nas conversas com clientes sobre investimentos e visitas à China, sugerindo um descongelamento de relações, com maior interesse dos europeus e um aumento gradual do envolvimento americano.



