Velocidade para o Estreito de Ormuz retomar operações regulares
Embora o acordo entre Donald Trump e o Irã tenha provocado uma queda no preço do petróleo para menos de US$ 80 o barril, com a expectativa de acabar com uma das maiores interrupções de oferta dos últimos tempos, especialistas afirmam que o mercado de petróleo e outras commodities essenciais continuará pressionado por semana, possivelmente durante meses. A movimentação de navios, reparos em infraestruturas afetadas e a reconstrução dos estoques consumirão tempo.
Assim, o memorando que permite a reabertura do Estreito de Ormuz após a suspensão das sanções americanas à venda de petróleo iraniano funcionará gradualmente, mais como a liberação paulatina do fluxo do que uma retomada súbita das operações.
Já há navios cruzando o Golfo Pérsico?
Até a manhã de quinta-feira, o tráfego no entorno do Estreito de Ormuz continuava abaixo do habitual, segundo dados de empresas de monitoramento marítimo. Contudo, alguns navios, entre eles três petroleiros sauditas e um transportador francês de gás natural liquefeito, já passaram pela área, conforme a Kpler.
Outras embarcações estão se organizando para a travessia, com tripulações realizando limpeza dos cascos, reabastecimento e carregamento de suprimentos nos últimos dias. Por sua vez, observadores perto de Dubai notaram superpetroleiros se aproximando da entrada do estreito.
Até o momento, a Marinha iraniana não anunciou oficialmente a reabertura para o trânsito. Uma gravação obtida pelo The Wall Street Journal revela que a Marinha Sepah, ligada à Guarda Revolucionária Islâmica, mantém a proibição e destaca que a passagem depende de autorização e escolta militar.
A Kpler contabilizou apenas seis travessias no dia 17 de junho, majoritariamente por rotas próximas à costa iraniana, inclusive uma embarcação que navegou sem sinalização de localização. Em junho, o estreito tem registrado em média dez embarcações diárias, bem menos que as mais de cem antes do conflito.
Quanto tempo para o Estreito retomar a normalidade?
Fatores como o acúmulo de navios parados, trocas de tripulação e o descanso necessário indicam que o tráfego pode levar semanas ou até meses para voltar a níveis anteriores. Analistas da Kpler indicam que, em até um mês, o fluxo pode chegar a metade do pré-guerra, com 50 a 60 embarcações diárias, se nada atrapalhar.
Uma recuperação plena, segundo Sheila Cameron, CEO da Lloyd’s Market Association, pode demandar vários meses, já que os armadores buscam garantias em relação à retirada de minas marítimas, reabertura das instalações portuárias e definição clara sobre tarifas.
A maior preocupação é a presença persistente de minas navais, forçando as embarcações a navegarem próximas às margens iranianas e omanenses até a segurança da rota central ser confirmada, limitando o número de travessias por dia.
O acordo recente prevê que o Irã negocie a gestão futura do estreito com Omã e demais países do Golfo.
O bloqueio naval dos EUA já foi suspenso?
Sim, o processo de retirada do bloqueio pelos Estados Unidos teve início após o acordo de paz e deve ser concluído dentro de 30 dias. Indicativos de flexibilização surgiram antes mesmo do pacto ser firmado: três petroleiros carregando mais de cinco milhões de barris de petróleo iraniano partiram do porto de Chabahar e transitaram por zonas antes bloqueadas na terça-feira. Navios com bandeira iraniana repetiram a ação nos dias seguintes.
Quando os estoques de petróleo, GNL e fertilizantes serão liberados no mercado?
Os produtores de petróleo e gás devem aguardar o retorno dos petroleiros ao Golfo Pérsico para restabelecer completamente suas operações. Mesmo após a retomada da navegação, levará semanas para que o petróleo alcance compradores distantes.
Michael Haigh, chefe de pesquisas de commodities do Société Générale, ressalta que mesmo com a reabertura do estreito esperada para o final de junho, uma melhora significativa no suprimento só será constatada em agosto, com uma recuperação mais consistente possivelmente apenas em setembro.
Até lá, o consumo continuará drenando estoques em julho e agosto, exercendo pressão adicional sobre as reservas já baixas.
Quando a produção petrolífera poderá alcançar os níveis anteriores ao conflito?
Em maio, produtores do Oriente Médio reduziram a produção em mais de 11 milhões de barris por dia em relação ao período anterior ao conflito, de acordo com a Administração de Informação de Energia dos EUA. A retomada enfrenta desafios logísticos e de engenharia.
Segundo Francis Osborne, chefe de análise da Argus Media, retornar aos volumes pré-conflito pode levar de quatro a seis meses. A Agência Internacional de Energia aponta que metade dos campos da região pode retomar produção normal em cerca de duas semanas e aproximadamente 80% em seis semanas. Os últimos 20%, sobretudo no Iraque e Kuwait, são os mais complexos, podendo alguns não retornar plenamente.
No Iraque, a ausência de trabalhadores estrangeiros e danos nas estruturas dificultam a avaliação e recuperação dos campos. Há indícios de obstrução da produção por substâncias semelhantes à parafina e asfalto em alguns poços.
A consultoria Wood Mackenzie projeta que os campos do sul do Iraque precisarão de cerca de nove meses para restaurar 85% da produção pré-conflito. Já a Rystad Energy estima que os reparos necessários custarão ao menos US$ 58 bilhões.
Qual será o efeito da recomposição dos estoques?
Os estoques globais de petróleo encolheram aproximadamente 350 milhões de barris entre março e maio, volume equivalente a cerca de três dias e meio de consumo mundial, segundo a IEA.
Nos Estados Unidos, profissionais do setor indicam que a reposição das reservas estratégicas levará meses mesmo após o estreito ser reaberto. Desde o fim de março, mais de 70 milhões de barris foram retirados da Reserva Estratégica de Petróleo, dentro do limite autorizado de 172 milhões pelo governo Trump.
Se o ritmo atual prosseguir, o limite será alcançado no início de setembro, com a reserva em torno de 243 milhões de barris, muito abaixo do pico superior a 700 milhões atingido em 2009.



