{"id":5040,"date":"2026-04-07T07:26:39","date_gmt":"2026-04-07T10:26:39","guid":{"rendered":"https:\/\/startrico.com.br\/noticias\/escassez-de-pedreiros-entenda\/"},"modified":"2026-04-07T07:26:39","modified_gmt":"2026-04-07T10:26:39","slug":"escassez-de-pedreiros-entenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/startrico.com.br\/noticias\/escassez-de-pedreiros-entenda\/","title":{"rendered":"Escassez De Pedreiros: Entenda A Crise Na Constru\u00e7\u00e3o Civil"},"content":{"rendered":"<h2>Escassez de pedreiros na constru\u00e7\u00e3o civil: entenda os motivos por tr\u00e1s do problema<\/h2>\n<p>Executivos do setor da constru\u00e7\u00e3o civil frequentemente relatam a dificuldade crescente em encontrar profissionais como pedreiros e mestres de obra, apontando que menos pessoas desejam atuar nos canteiros de obras. Entre as explica\u00e7\u00f5es comuns est\u00e3o programas sociais como o Bolsa Fam\u00edlia, o trabalho por meio de aplicativos como Uber, e supostos comportamentos geracionais. Entretanto, as ra\u00edzes dessa escassez v\u00e3o al\u00e9m dessas causas aparentes, demandando uma an\u00e1lise mais profunda e solu\u00e7\u00f5es estruturais a longo prazo.<\/p>\n<p>David Fratel, diretor do Sinduscon-SP, entidade que representa as construtoras no estado de S\u00e3o Paulo, destaca que a profiss\u00e3o atualmente n\u00e3o atrai os jovens como antes. Ele enfatiza que o setor precisa se transformar para ser mais acolhedor \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de esperar que elas se adaptem a um modelo antigo.<\/p>\n<h2>An\u00e1lise dos dados e causas estruturais<\/h2>\n<p>O pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (Ibre-FGV), investigou as causas frequentemente atribu\u00eddas \u00e0 falta de m\u00e3o de obra na constru\u00e7\u00e3o civil, como o Bolsa Fam\u00edlia, o surgimento da economia em plataformas digitais, a alta rotatividade de trabalhadores e fatores demogr\u00e1ficos. Sua pesquisa concluiu que o problema n\u00e3o tem uma \u00fanica origem, mas ocorre principalmente por raz\u00f5es estruturais profundas.<\/p>\n<p>Para compreender as mudan\u00e7as no mercado de trabalho, \u00e9 preciso voltar \u00e0 d\u00e9cada de 1990, quando o Brasil vivenciou duas grandes transforma\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas: uma redu\u00e7\u00e3o significativa da taxa de natalidade, que caiu de uma m\u00e9dia de quase quatro filhos por mulher para menos de 1,6 hoje, e o avan\u00e7o da escolaridade m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pa\u00edses desenvolvidos vivenciaram essas mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, acompanhadas por grandes investimentos em automa\u00e7\u00e3o industrial e pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o que mantiveram a for\u00e7a de trabalho. No Brasil, entretanto, essas transforma\u00e7\u00f5es ocorreram em meio a um cen\u00e1rio de crescimento econ\u00f4mico lento e baixo avan\u00e7o tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O quadro demogr\u00e1fico brasileiro hoje se assemelha ao de na\u00e7\u00f5es desenvolvidas, com uma diminui\u00e7\u00e3o no n\u00famero absoluto de jovens em idade ativa, especialmente nas regi\u00f5es Sudeste e Sul, que s\u00e3o as maiores empregadoras do setor da constru\u00e7\u00e3o. Contudo, a estrutura produtiva brasileira ainda opera sob a premissa de m\u00e3o de obra abundante e barata, o que est\u00e1 defasado frente \u00e0 realidade atual.<\/p>\n<p>Daniel Duque compara essa situa\u00e7\u00e3o com o uso dom\u00e9stico: enquanto a m\u00e1quina de lavar lou\u00e7a j\u00e1 \u00e9 comum no exterior h\u00e1 d\u00e9cadas, no Brasil prevaleceu o emprego intensivo de m\u00e3o de obra, como as empregadas dom\u00e9sticas, devido ao baixo custo relativo do trabalho humano em compara\u00e7\u00e3o com a tecnologia. Nas obras, a realidade \u00e9 similar: os Estados Unidos contam com menos trabalhadores e mais equipamentos por projeto, enquanto o Brasil ainda depende muito da for\u00e7a humana e possui baixa automa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a importa\u00e7\u00e3o de tecnologia permanece cara no Brasil devido a elevada carga tribut\u00e1ria sobre os bens de capital, e recentemente foram criados tributos adicionais que onerar\u00e3o ainda mais certos equipamentos.<\/p>\n<p>Quanto ao efeito do Bolsa Fam\u00edlia, os dados indicam que o programa impactou a oferta de trabalhadores, mas principalmente em grupos espec\u00edficos, como homens jovens das regi\u00f5es Norte e Nordeste, e num per\u00edodo determinado entre 2020 e 2023, quando o programa expandiu significativamente durante a pandemia. Apesar disso, o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 apenas um fator secund\u00e1rio e n\u00e3o a principal causa da escassez observada na constru\u00e7\u00e3o civil, que segundo empres\u00e1rios do setor, se agravou mesmo com a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de fam\u00edlias beneficiadas pelo programa.<\/p>\n<p>David Fratel confirma que o Bolsa Fam\u00edlia n\u00e3o pode ser responsabilizado pela falta de trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o: \u201cNingu\u00e9m vive confortavelmente s\u00f3 com Bolsa Fam\u00edlia. Os custos do aluguel, por exemplo, j\u00e1 s\u00e3o altos demais para esse benef\u00edcio sustentar\u201d.<\/p>\n<p>Sobre a influ\u00eancia dos aplicativos de trabalho como Uber e iFood, a pesquisa de Duque apresenta dados surpreendentes: a chamada \u201cgig economy\u201d acaba por gerar um impacto positivo l\u00edquido na gera\u00e7\u00e3o de empregos e renda. Atualmente, cerca de 1,7 milh\u00e3o de brasileiros atuam via aplicativos, em sua maioria jovens homens em grandes cidades, o mesmo perfil demogr\u00e1fico da constru\u00e7\u00e3o civil. No entanto, esses aplicativos funcionam mais como uma transi\u00e7\u00e3o profissional do que sugam trabalhadores de outras \u00e1reas.<\/p>\n<p>Para Antonio Ramalho, presidente do sindicato dos trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil em S\u00e3o Paulo (Sintracon-SP), o trabalhador costuma trocar o trabalho na obra, com remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de R$ 3 mil e condicionantes dif\u00edceis como chuva, calor e insalubridade, por tarefas em apps que aparentemente pagam n\u00fameros maiores, como at\u00e9 R$ 8 mil. Por\u00e9m, ele ressalta que essa soma n\u00e3o considera os custos com combust\u00edvel, manuten\u00e7\u00e3o, e a aus\u00eancia de direitos trabalhistas como FGTS e Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Outro aspecto menos discutido \u00e9 a alta rotatividade de trabalhadores. Duque aponta que ap\u00f3s a pandemia a taxa de troca de emprego subiu muito, gerando custos extras para empregadores com contrata\u00e7\u00e3o, treinamento e adapta\u00e7\u00e3o. Parte do que \u00e9 identificado como falta de m\u00e3o de obra, portanto, resulta tamb\u00e9m do aumento na movimenta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, fen\u00f4meno que se torna mais evidente com a queda do desemprego.<\/p>\n<h2>O preconceito hist\u00f3rico contra o trabalho manual no Brasil<\/h2>\n<p>Um fator cultural que contribui para o desinteresse no trabalho bra\u00e7al est\u00e1 associado a uma heran\u00e7a profunda e antiga no pa\u00eds. J\u00e1 em 1824, a viajante inglesa Maria Graham destacou no seu di\u00e1rio de viagem pelo Brasil que, na \u00e9poca, grande parte do trabalho era realizada por escravos, e o trabalho manual feito por homens livres era considerado vergonhoso. A sociedade acontecia sob o pilar do esfor\u00e7o escravo, sendo este o sistema vigente.<\/p>\n<p>Estes aspectos hist\u00f3ricos ainda reverberam atualmente. O pesquisador Daniel Duque explica que o racismo estrutural brasileiro faz com que o of\u00edcio de pedreiro tenha um baixo prest\u00edgio social, por ser associado a grupos discriminados no passado e por seu pagamento prec\u00e1rio, o que alimenta um ciclo de baixa valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Moderniza\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o civil como caminho para a recupera\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Para reverter esse quadro, David Fratel lidera uma agenda que envolve o sindicato dos trabalhadores e o Senai, focada na moderniza\u00e7\u00e3o do setor. Isso inclui mudan\u00e7a de nomenclaturas para aumentar o apelo da profiss\u00e3o, como trocar o termo \u201cpedreiro\u201d por \u201cmontador de drywall\u201d; estabelecer trajet\u00f3rias profissionais certificadas; e introduzir m\u00e9todos construtivos industrializados.<\/p>\n<p>Um exemplo pr\u00e1tico \u00e9 o uso de pain\u00e9is pr\u00e9-moldados que permitem erguer dez metros quadrados de parede em apenas dez minutos, em compara\u00e7\u00e3o a um dia inteiro utilizando t\u00e9cnicas tradicionais. Apesar das tecnologias dispon\u00edveis, 70% das obras ainda recorrem a m\u00e9todos convencionais, ocasionando desperd\u00edcios estimados em 30% dos materiais.<\/p>\n<p>Um desafio significativo do setor \u00e9 a aus\u00eancia de m\u00e9tricas rigorosas para medir produtividade. Fratel admite: \u201cN\u00e3o sabemos quantos oper\u00e1rios por hora s\u00e3o realmente necess\u00e1rios para executar uma obra de determinada dimens\u00e3o em um prazo predeterminado\u201d.<\/p>\n<p>Grande parte das construtoras terceiriza os servi\u00e7os sem acompanhamento detalhado dos processos, focando apenas em prazos e or\u00e7amentos. Diferente da ind\u00fastria automotiva, que calcula minuciosamente o n\u00famero de horas necess\u00e1rias por ve\u00edculo, a constru\u00e7\u00e3o civil conta com aproximadamente 8 milh\u00f5es de trabalhadores, mas sem controle adequado sobre a produtividade.<\/p>\n<p>Essa falta de informa\u00e7\u00e3o mostra que o setor n\u00e3o disp\u00f5e de solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas para tornar a profiss\u00e3o mais atraente. De acordo com a vis\u00e3o dos empregadores, somente ap\u00f3s avan\u00e7os em qualifica\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o e efici\u00eancia produtiva ser\u00e1 poss\u00edvel discutir reajustes salariais e uma potencial redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho.<\/p>\n<p>J\u00e1 o sindicato dos trabalhadores defende que sem um aumento salarial imediato, ser\u00e1 muito dif\u00edcil atrair e reter m\u00e3o de obra qualificada.<\/p>\n<p>David Fratel enfatiza que a transforma\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o e sua moderniza\u00e7\u00e3o devem ocorrer simultaneamente, pois uma impulsiona a outra. \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 a falta de vontade de ser pedreiro, mas sim a recusa em trabalhar com m\u00e9todos ultrapassados.\u201d<\/p>\n<p>O grande desafio brasileiro est\u00e1 em transformar a constru\u00e7\u00e3o civil em uma ind\u00fastria moderna o suficiente para que jovens \u2013 sejam filhos de pedreiros ou n\u00e3o \u2013 enxerguem nela uma carreira desej\u00e1vel e digna.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/economia\/construcao-nao-acha-mao-de-obra-causas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fonte<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escassez de pedreiros impacta a constru\u00e7\u00e3o civil, causada por desafios estruturais, baixa valoriza\u00e7\u00e3o e falta de moderniza\u00e7\u00e3o no setor, exigindo solu\u00e7\u00e3o urgente.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5039,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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