{"id":6111,"date":"2026-06-24T07:36:09","date_gmt":"2026-06-24T10:36:09","guid":{"rendered":"https:\/\/startrico.com.br\/noticias\/a-realidade-das-startups\/"},"modified":"2026-06-24T07:36:09","modified_gmt":"2026-06-24T10:36:09","slug":"a-realidade-das-startups","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/startrico.com.br\/noticias\/a-realidade-das-startups\/","title":{"rendered":"A Realidade das Startups Brasileiras Ap\u00f3s a Euforia"},"content":{"rendered":"<h2>Ap\u00f3s o per\u00edodo de euforia, a realidade enfrentada pelas startups brasileiras<\/h2>\n<p>Por Jos\u00e9 Brazuna \u2014 S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>24\/06\/2026 07h00<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, em 2024, escrevi esta coluna diretamente do Web Summit no Rio de Janeiro, impressionado pela energia quase palp\u00e1vel que dominava os corredores do evento.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, o destaque n\u00e3o estava apenas no avan\u00e7o tecnol\u00f3gico ou na intelig\u00eancia artificial, j\u00e1 presente em praticamente todas as discuss\u00f5es. O que realmente chamava aten\u00e7\u00e3o era ver milhares de pessoas empenhadas em assumir um papel central no mundo a sua volta.<\/p>\n<p>Eram empreendedores de diversas faixas et\u00e1rias, apresentando suas startups em pequenos espa\u00e7os pelo evento, nos corredores, nas filas e em qualquer lugar onde conseguissem um p\u00fablico interessado. Havia uma mistura intensa de grandes empresas, investidores, jovens fundadores, executivos, curiosos, idealistas e pessoas tentando transformar suas ideias em neg\u00f3cios. A atmosfera era extremamente vibrante.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, chamei esse movimento de uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa das startups brasileiras.<\/p>\n<p>Este ano, retornei ao Web Summit com uma perspectiva diferente. A revolu\u00e7\u00e3o continua, mas o romantismo parece ter desaparecido. O evento seguiu movimentado, com muita gente circulando, por\u00e9m com menos espa\u00e7os institucionais de grande porte, menor presen\u00e7a ostensiva de corpora\u00e7\u00f5es e grandes apoiadores, e um aumento vis\u00edvel de empreendedores em est\u00e1gios bastante iniciais.<\/p>\n<p>Muitas empresas exibiam uma impress\u00e3o de estarem ainda muito cruas, em fase inicial: solu\u00e7\u00f5es em desenvolvimento e fundadores focados mais em validar suas teses do que em escalar neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Brincando, poderia-se dizer que parte dessas \u201cempresas\u201d talvez nem tivessem CNPJ formalizado. Claro que \u00e9 uma hip\u00e9rbole, mas ilustra bem a sensa\u00e7\u00e3o dominante de que o evento deste ano refletiu menos o glamour das startups e mais as dificuldades reais do empreendedorismo no Brasil.<\/p>\n<p>Enquanto em 2024 o entusiasmo era o que mais me marcava, em 2026 o que sobressaiu foi o contraste entre a ampla democratiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a dificuldade concreta de transformar essa tecnologia em uma companhia sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Juros elevados, escassez de capital, maior seletividade dos investidores e um cen\u00e1rio econ\u00f4mico mais desafiador deixam marcas evidentes. O empreendedor permanece resiliente, inventivo e disposto a contrariar o conselho tradicional de estabilidade que muitas fam\u00edlias brasileiras sempre adotaram. No entanto, parece estar mais solit\u00e1rio, pressionado e, em diversos casos, menos amadurecido.<\/p>\n<p>Quanto ao capital, a atmosfera tamb\u00e9m parecia distinta. Em conversas com investidores institucionais, notei uma menor anima\u00e7\u00e3o. Havia menos investidores anjo e menos aquela energia de busca incessante pela pr\u00f3xima grande oportunidade.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa a aus\u00eancia de dinheiro, mas ele est\u00e1 mais dif\u00edcil de ser obtido e certamente sujeito a crit\u00e9rios mais rigorosos. A \u00e9poca em que bastava aparentar ser uma \u201cstartup\u201d promissora para despertar interesse j\u00e1 passou. Atualmente, o investidor exige mais subst\u00e2ncia, receitas comprovadas, clareza de mercado, efici\u00eancia no uso dos recursos e menos discursos gen\u00e9ricos.<\/p>\n<p>O tema predominante, como esperado, foi a intelig\u00eancia artificial (IA). Por\u00e9m, de uma forma diferente.<\/p>\n<p>A IA estava presente em todos os lugares \u2014 nos pain\u00e9is, nos estandes, nos nomes das solu\u00e7\u00f5es, nas falas dos fundadores, nos materiais de divulga\u00e7\u00e3o e nas promessas de aumento de produtividade. Se em 2024 a IA j\u00e1 era ub\u00edqua nos corredores, hoje ela virou praticamente o idioma obrigat\u00f3rio do setor.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno tem um lado bastante positivo. Nunca foi t\u00e3o simples criar um produto digital. Pequenas equipes s\u00e3o capazes de desenvolver prot\u00f3tipos rapidamente, automatizar processos, construir interfaces inteligentes e testar hip\u00f3teses de forma acelerada, algo impens\u00e1vel poucos anos atr\u00e1s. A intelig\u00eancia artificial democratizou o empreendedorismo tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 um lado oposto. Quando todos afirmam trabalhar com IA, o termo perde for\u00e7a e, muitas vezes, torna-se dif\u00edcil distinguir quem realmente resolve problemas importantes daqueles que apenas \u201cembalam\u201d qualquer solu\u00e7\u00e3o com o r\u00f3tulo de IA. Organizar melhor dados dispon\u00edveis publicamente, agregar buscas ou automatizar processos comuns n\u00e3o configura, por si s\u00f3, um neg\u00f3cio inovador.<\/p>\n<p>Observei muitas empresas focadas nas \u00e1reas de recursos humanos, vendas e marketing. Ferramentas para prospec\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, recrutamento, atendimento, aumento da produtividade comercial, qualifica\u00e7\u00e3o de leads e automa\u00e7\u00e3o do relacionamento. S\u00e3o demandas reais e mercados relevantes, por\u00e9m a quantidade de solu\u00e7\u00f5es semelhantes, com pouca diferencia\u00e7\u00e3o, era impressionante.<\/p>\n<p>Se eu fosse empreendedor nessas \u00e1reas, estaria atento ao n\u00edvel de concorr\u00eancia. A barreira para entrar caiu bastante, elevando muito a competi\u00e7\u00e3o. O que antes era diferencial, o uso de IA, agora se tornou o b\u00e1sico. O fator decisivo atualmente est\u00e1 na distribui\u00e7\u00e3o, na qualidade dos dados, na integra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica com os clientes, na profundidade dos problemas resolvidos e na comprova\u00e7\u00e3o de retorno financeiro.<\/p>\n<p>Um ponto curioso foi a presen\u00e7a mais t\u00edmida de fintechs do que o esperado, assim como pouca atividade em legaltechs e regtechs. Isso chama aten\u00e7\u00e3o porque esses setores podem representar oportunidades promissoras. A IA se mostra bastante eficiente em organizar aspectos do universo jur\u00eddico e regulat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds complexo, altamente regulado, burocr\u00e1tico e repleto de processos. Existem in\u00fameras rotinas jur\u00eddicas, financeiras, regulat\u00f3rias e operacionais que ainda demandam trabalho manual, an\u00e1lise de documentos, interpreta\u00e7\u00e3o de normas, verifica\u00e7\u00f5es, controles e gera\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial \u00e9 bastante adequada para lidar com essas dificuldades.<\/p>\n<p>Mais do que criar ferramentas repetitivas para RH, vendas e marketing, h\u00e1 muito espa\u00e7o para aplicar IA em \u00e1reas menos \u00f3bvias, por\u00e9m potencialmente mais defens\u00e1veis, como compliance, preven\u00e7\u00e3o \u00e0 lavagem de dinheiro, KYC (Conhe\u00e7a seu Cliente), KYP (Conhe\u00e7a seu Parceiro), rotinas jur\u00eddicas, controles internos, auditorias, governan\u00e7a e intera\u00e7\u00e3o com \u00f3rg\u00e3os reguladores.<\/p>\n<p>S\u00e3o segmentos mais complexos de entender, o que reduz a banaliza\u00e7\u00e3o. Neles, n\u00e3o basta uma interface agrad\u00e1vel ou um discurso comercial atraente, \u00e9 necess\u00e1rio conhecimento profundo do problema.<\/p>\n<p>Outro indicativo da mudan\u00e7a est\u00e1 no esp\u00edrito do evento. Em edi\u00e7\u00f5es anteriores, a ambienta\u00e7\u00e3o era mais internacional, com maior presen\u00e7a de estrangeiros e pain\u00e9is majoritariamente em ingl\u00eas. Neste ano, houve mais conte\u00fado em portugu\u00eas e menos visibilidade de estrangeiros. O Web Summit pareceu mais alinhado com a realidade brasileira, o que o torna um reflexo mais fiel do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esse espelho revela um Brasil dual. Temos criatividade, talento, um mercado consumidor robusto, \u00f3timos empreendedores e grande capacidade de adapta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Entretanto, tamb\u00e9m convivemos com juros elevados, capital caro, burocracia excessiva, inseguran\u00e7a jur\u00eddica, dificuldades para escalar neg\u00f3cios e uma cultura que torna o caminho do empreendedorismo mais \u00e1rduo do que deveria.<\/p>\n<p>Em 2024, minha indaga\u00e7\u00e3o era quantos desses empreendedores apareceriam futuramente nas capas de jornais e revistas como respons\u00e1veis por solu\u00e7\u00f5es que transformariam o mundo.<\/p>\n<p>Atualmente, minha pergunta mudou.<\/p>\n<p>Quantos conseguir\u00e3o se manter firmes para descobrir se realmente solucionam problemas relevantes? Quantos sobreviver\u00e3o a ciclos de escassez de capital? Quantos transformar\u00e3o a intelig\u00eancia artificial em uma vantagem competitiva genu\u00edna e n\u00e3o apenas em um argumento de venda? Quantos conseguir\u00e3o passar da fase de ideia promissora para a realidade de empresa consolidada?<\/p>\n<p>Essa, talvez, seja a principal diferen\u00e7a entre o Web Summit de 2024 e o de 2026.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o das startups brasileiras n\u00e3o parou, mas tornou-se mais seletiva, desafiadora e madura. Isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim. O encanto e o entusiasmo s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o sustentam empresas. O que sustenta s\u00e3o clientes, receita, execu\u00e7\u00e3o, efici\u00eancia, confian\u00e7a e a capacidade real de resolver problemas.<\/p>\n<p>O Web Summit continua sendo uma vitrine expressiva do empreendedorismo brasileiro. Contudo, neste ano, ele me pareceu menos uma festa do futuro e mais um retrato fiel da realidade atual. Um presente em que a intelig\u00eancia artificial entregou ferramentas poderosas a milhares de empreendedores, mas n\u00e3o eliminou os antigos desafios de construir uma companhia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>No final, talvez a principal not\u00edcia positiva seja justamente essa. Ap\u00f3s a fase de euforia, vem o momento do teste. Vem a hora da execu\u00e7\u00e3o. Depois da revolu\u00e7\u00e3o silenciosa, aparece o questionamento que diferencia boas ideias de neg\u00f3cios s\u00f3lidos.<\/p>\n<p>Quem, de fato, conseguir\u00e1 permanecer firme?<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Brazuna<\/strong> \u00e9 s\u00f3cio da <a href=\"mailto:jbrazuna@iaasbr.com\/\">Iaas!<\/a><\/p>\n<p>Contato: jbrazuna@iaasbr.com<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-valor-investe.glbimg.com\/rfYW2HMbZjOaO90Ro6AyEopaDwo=\/0x0:1103x619\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_f035dd6fd91c438fa04ab718d608bbaa\/internal_photos\/bs\/2025\/2\/p\/7q1CgpQ427z1ZQzc7tHA\/josebrazunacoluna.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Brazuna\"><a href=\"https:\/\/valorinveste.globo.com\/blogs\/jose-brazuna\/coluna\/depois-da-euforia-a-realidade-das-startups-brasileiras.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fonte<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Startups brasileiras atravessam desafios econ\u00f4micos e maior rigor de investidores, exigindo foco em 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