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O investidor ainda busca por estrelas em um jogo que exige trabalho em equipe

Entre histórias encantadoras e decisões fundamentadas, o verdadeiro desafio está menos em escolher o destaque do momento e mais em montar uma carteira que se mantenha eficiente em variados cenários

Por Zeca Doherty — São Paulo

17/06/2026 06h52 Atualizado 17/06/2026 06h52

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Em um ano marcado pela Copa do Mundo, o debate se repete: a população se divide entre aqueles que valorizam o time coletivo e os que continuam acreditando que tudo se resolve com um jogador excepcional.

Essa admiração pelo talento singular faz parte da nossa cultura, especialmente no futebol, onde as decisões importantes geralmente vêm de um jogador. No entanto, a experiência recente demonstra que equipes que dependem unicamente de uma estrela raramente conquistam o torneio. Para vencer uma Copa, é preciso mais do que momentos isolados de brilho; é necessária organização, regularidade e habilidade para se adaptar durante toda a competição.

O universo dos investimentos segue uma lógica semelhante.

A obsessão pelo ‘camisa 10’ se manifesta na procura pelo gestor do momento, pelo fundo que liderou o ranking no mês anterior ou pela estratégia que parece invencível em determinada fase. Resultados podem ser vistos, quantificados e são sedutores, porém, isoladamente, não indicam o que virá no futuro.

É exatamente aí que muitos cometem equívocos.

Investir não se trata de acertar excepcionalmente, mas de construir uma carteira equilibrada que funcione em diferentes situações. Diversificação, horizonte de investimento e disciplina são pilares essenciais para a sustentabilidade do portfólio, inclusive quando nenhum patrimônio individual se destaca.

Quando a escolha está centrada em um único elemento — seja um gestor, uma tese ou um produto — o investidor fica à mercê da exceção. E transformar esse caso especial em estratégia é um dos erros mais perigosos e silenciosos para o investidor, equivalente a entrar em campo esperando que um lance solitário ganhe todo o campeonato.

O talento faz diferença, e sempre fará.

Bons gestores, análises sólidas e estratégias eficazes são fundamentais e devem compor a carteira. No entanto, seu valor depende do contexto geral. Fora desse conjunto, acabam carregando um peso excessivo que não lhes cabe.

O mercado financeiro brasileiro evoluiu significativamente nos últimos anos. O acesso aumentou, as opções se diversificaram e investidores contam agora com uma grade mais sofisticada de estratégias.

Por outro lado, esse progresso trouxe uma consequência: a multiplicação das narrativas.

Em um ambiente repleto de alternativas, a luta por atenção se intensifica. Narrativas simples, muitas vezes baseadas em desempenho recente ou em figuras isoladas, ganham força natural. O risco é confundir uma boa história com uma decisão acertada.

O amadurecimento do investidor requer uma mudança de foco. É preciso dedicar menos atenção a quem teve destaque recentemente e mais à forma como o conjunto da carteira está estruturado para prosperar no longo prazo.

Isso demanda diversificação, alinhamento claro com os objetivos pessoais, entendimento dos riscos e, acima de tudo, disciplina constante para manter aportes regulares. São aspectos menos visíveis, porém decisivos para os resultados futuros.

No futebol, cada Mundial reforça o aprendizado: um lance pode definir uma partida, mas é a equipe bem organizada que mantém a performance ao longo da competição.

Nos investimentos, a situação é semelhante.

No fim das contas, não é o brilho momentâneo que determina o êxito, e sim a capacidade de manter a consistência ao longo do tempo.

Zeca Doherty é CEO da Anbima.

Zeca Doherty — Foto: Arte / Valor

Fonte

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