De falência à Série A: A trajetória de sucesso do Como no futebol italiano com bilionários investidores
Em 2019, os irmãos bilionários Michael e Robert Hartono adquiriram o clube italiano Como por € 1 milhão. Após anos enfrentando dificuldades e atuando em divisões inferiores, o time retornou à primeira divisão do futebol italiano, a Série A, após 20 anos, e atualmente ocupa a quarta colocação, com perspectivas de classificação para torneios europeus lucrativos.
Assim como o clube britânico Wrexham, comprado por atores famosos, o Como investiu muito mais que seus concorrentes menores para alcançar o sucesso. Desde a aquisição, os Hartono injetaram mais de £ 400 milhões no clube, apesar das perdas financeiras terem ultrapassado € 100 milhões no último ano fiscal, com previsão de aumento nos próximos anos.
Os bilionários donos, cujo patrimônio líquido conjunto está próximo a US$ 35 bilhões, apostam pesado para transformar o Como em um destino esportivo e turístico. Os torcedores têm agora a oportunidade de combinar a experiência do jogo com passeios exclusivos, incluindo estadias em iates e vilas, voos particulares de hidroavião e roteiros personalizados às margens do lago. Além disso, os jogadores são apresentados com ternos da marca italiana Brioni, e o clube promove uma cerveja artesanal local chamada La Comasca.
O Estádio Giuseppe Sinigaglia, inaugurado em 1907 e localizado na região do Lago de Como, é o menor da Série A, com capacidade média de público em torno de 10,5 mil pessoas. Para ampliar sua estrutura, o clube está colaborando com a renomada empresa de arquitetura esportiva Populous para expandir a capacidade para mais de 15 mil lugares e incorporar diversas áreas VIP, com a ideia de tornar o espaço uma atração durante todo o ano, não se limitando aos dias de partidas.
De acordo com Mirwan Suwarso, empresário indonésio e presidente do Como, a intenção não é simplesmente construir um estádio de futebol tradicional, mas criar um verdadeiro destino turístico na região.
Historicamente, o Como 1907 enfrentou dificuldades financeiras que levaram à falência há cerca de dez anos. Inicialmente, o plano dos Hartono era utilizar o clube para inserir jovens jogadores indonésios nas divisões inferiores italianas e documentar essa experiência. No entanto, após o inesperado acesso para a terceira divisão e mudanças regulatórias sobre jogadores estrangeiros, o foco foi alterado para transformar o clube em uma atração esportiva e turística.
Para fomentar este novo ecossistema, o clube investiu em imóveis e lazer ao redor da sede, incluindo seis clubes de atividades, como um clube de remo, além de duas vilas à beira do lago equipadas com piscina, salão de beleza e academia.
Antes da compra pela família Hartono, o clube contava com patrocínio de uma empresa local de embalagens. Atualmente, a marca de streetwear de luxo RHUDE, fundada por Rhuigi Villaseñor em Los Angeles, é responsável pela direção da imagem do clube, enquanto a Uber é patrocinadora principal na camisa e a gestora global Neuberger Berman ocupa espaço nas costas do uniforme.
O modelo de negócios do Como depende fortemente de torcedores estrangeiros, que já representam 43% da receita de ingressos. Enquanto uma entrada simples para as partidas custa em torno de € 25, pacotes que combinam jogos com passeios privativos no lago chegam a custar até € 1.000, segundo Suwarso.
Outro fator fundamental para o sucesso do clube é a forte aposta em tecnologia, dados e análises. A equipe técnica é composta por cerca de 50 engenheiros especializados em inteligência artificial que realizam observações e análises táticas avançadas, incluindo a contratação de profissionais vindos da StatsBomb, empresa britânica de análise de futebol. A estrutura tecnológica do clube lembra mais uma startup do Vale do Silício do que um time tradicional, com cargos dedicados a plataformas e engenharia de IA.
Essa tecnologia permite que o Como avalie o desempenho futuro dos jogadores em potencial considerando o estilo de jogo dos clubes atuais, auxiliando nas decisões de contratação. Mesmo assim, os investimentos em atletas permanecem altos; após o acesso à Série A, o clube já gastou mais de € 100 milhões em reforços para competir no mais alto nível.
O presidente afirma que a meta é controlar as perdas nos próximos cinco anos, principalmente por meio da venda constante de jogadores com potencial valorizado. O elenco do Como é jovem, composto em grande parte por atletas com menos de 23 anos, o que oferece boa margem para negociações lucrativas com grandes clubes europeus.
Um exemplo dessa estratégia é Nico Paz, meio-campista adquirido do Real Madrid por € 6 milhões em 2024. O clube recusou uma oferta de € 75 milhões do Tottenham Hotspur por ele no ano passado.
“Acredito que em cinco anos, ou talvez um período menor, atingiremos o equilíbrio financeiro”, afirma Suwarso, destacando a necessidade de reformular o elenco para que os jogadores sejam preparados para competir na primeira divisão.
Enquanto o Como continua sua ascensão, o clube também atrai celebridades. Estrelas do cinema como Keira Knightley, Hugh Grant e Andrew Garfield já foram vistas nas arquibancadas, além de ex-jogadores famosos como Cesc Fàbregas e Thierry Henry, que possuem participação minoritária no time. Apesar de a presença de famosos ajudar na divulgação, o clube não busca essa estratégia intencionalmente.
Segundo Suwarso, o objetivo é desenvolver o clube como um polo esportivo que vá além do futebol, criando um ecossistema que se expanda e ganhe relevância muito além dos jogos em si.



