‘Matemática não é opinião’: Monique Evelle desmonta a ilusão de startups que viralizam, mas não geram receita
Com o aperto do capital, o mercado exige agora resultados concretos, modelo de negócio validado e fluxo de caixa estável
Num cenário em que o sucesso das startups passou a ser medido por alcance, engajamento e apresentação, surgiu a pergunta fundamental: afinal, quem está realmente vendendo?
Foi partindo dessa reflexão que Monique Evelle, investidora, fez sua exposição no NEEX Road Show 2026, em Porto Alegre, desafiando o empreendedor a voltar para a planilha.
Com o capital mais escasso e investidores cobrando mais consistência, a discrepância entre a narrativa e o resultado ficou evidente e menos tolerável. Agora, o mercado cobra que a empresa tenha um modelo de negócio funcionando, gere receita e opere com consistência.
“A empresa não faturou nada, mas está pedindo 1 milhão. Matemática não é opinião. Zero vezes 1 milhão é quanto? Quanto vale essa empresa?”, questiona Monique.
Transformação do ciclo: receita e consistência substituem construção de imagem
Monique destaca que o ecossistema enfrenta uma transformação, na qual criar uma boa imagem não basta para sustentar uma empresa. Muitos fundadores ainda se apegam à validação simbólica, como ter repertório internacional ou presença digital robusta, acreditando que isso signifique valor real.
Essa abordagem leva a uma distorção perigosa: o empreendedor crê que já tem valor antes mesmo de provar que o mercado está disposto a pagar pelo que oferece. Com isso, o ego passa de impulsionador para obstáculo, prejudicando a relação com investidores, que buscam evidências concretas. Sem receita, não há validação. Sem validação, não há capital.
Engajamento não é sinônimo de venda: a importância da conversão
Outro ponto central da fala de Monique é a confusão comum entre visibilidade e conversão. Na era das redes sociais, gerar atenção virou um objetivo em si, mas essa atenção muitas vezes não se traduz em negócios concretos.
De acordo com ela, conteúdos virais podem ampliar o alcance, mas não constroem necessariamente credibilidade, que é essencial para fechar vendas. “É preciso se comunicar, mas do jeito certo. Dançar e viralizar não significa converter. Queremos dinheiro no caixa”, ressalta.
A executiva ainda menciona uma mudança no comportamento do consumidor: com um cenário repleto de opções, o diferencial não está apenas em ser notado, mas em ser lembrado no momento de decisão.
“O novo luxo é estar offline. Manual, artesanal. Sem confiança, não há compra”, afirma Monique, ressaltando a necessidade de focar menos em otimizações para algoritmos e mais na construção de reputação sólida.
Foco na operação: prioridades equivocadas comprometem negócios
Monique alerta que, enquanto os empreendedores investem tempo em atividades visíveis, como eventos e conexões, negligenciam aspectos essenciais para o funcionamento da empresa, como fluxo de caixa, margem, estrutura de custos e gestão financeira.
Ela questiona: “Quantos encontros de networking você fez e que realmente resultaram em negócios?”
Segundo ela, essa rotina com foco em urgências faz com que as equipes gastem mais tempo corrigindo problemas do que impulsionando o crescimento. “Há uma diferença entre criar e consertar. Passamos mais tempo consertando e, ao final, chegamos exaustos”, destaca.
Sem espaço para planejamento, o crescimento acaba sendo um acidente, não uma estratégia.
Além disso, Monique chama atenção para a forma como muitos empreendedores interpretam o erro e a insistência. Ela diferencia persistência de teimosia: persistir é alcançar o objetivo com flexibilidade, enquanto insistir é teimar num caminho, muitas vezes movido pelo ego, mesmo que não funcione.
“Persistir significa manter o objetivo, embora o caminho possa mudar. Dez anos tentando a mesma coisa é teimosia”, exemplifica. Num mercado dinâmico, não saber ajustar o rumo pode ser mais nocivo que errar.
Investimento orientado por resultados e dados
Monique relata que sua estratégia de investimentos segue uma lógica baseada em performance e resultados. Ela explica que prefere colocar dinheiro em empresas lideradas por mulheres porque, comprovadamente, isso traz retornos financeiros superiores.
“Muitas pessoas me perguntam por que invisto em mulheres. Eu respondo: é matemática. Se eu coloco dólar numa empresa feminina, o retorno é maior. Eu gosto de dinheiro”, afirma.
Para ela, essa visão orientada por retorno deveria ser o principal critério em qualquer decisão de investimento.
Empreender é enfrentar o medo com ajuda e resiliência
Ao concluir, Monique enfatiza que o medo é parte constante da jornada do empreendedor. “Todas têm medo — de começar um negócio, de crescer, de errar em público.” Contudo, a diferença está em agir mesmo sentindo medo e buscar suporte quando necessário.
A mensagem final de sua palestra é clara: mais do que inovação, o mercado contemporâneo valoriza a consistência e a execução eficaz. Depois de um período em que a narrativa prevaleceu, agora é hora da entrega concreta.



