O Brasil dá os primeiros passos para desenvolver a próxima infraestrutura do dinheiro
Stablecoins em real deixam de ser apenas um produto cripto e assumem papel estratégico na tokenização financeira
Embora o volume ainda pareça modesto quando analisado isoladamente, o cenário já é suficientemente expressivo para indicar uma transformação estrutural no mercado financeiro brasileiro. Atualmente, existem mais de dez projetos diferentes de stablecoins atreladas ao real em operação, abrangendo desde soluções disponíveis para o público geral até formatos focados em liquidação institucional, conforme relatório recente da Fintrender intitulado 10+ BRL Stablecoins.
Esse número é, inclusive, significativo comparado ao mercado internacional: stablecoins em euro, por exemplo, ainda contam com pouco mais de vinte opções importantes, e o Brasil já ultrapassou metade desse total sozinho.
Historicamente, o dinheiro costuma ser o primeiro tipo de ativo a migrar para qualquer nova infraestrutura financeira emergente. Isso ficou evidente na digitalização bancária, na criação dos meios eletrônicos de pagamento e, agora, começa a se repetir com o blockchain. Antes mesmo do surgimento de ações tokenizadas, créditos privados on-chain ou fundos descentralizados em tecnologia DLT, a camada monetária é a que aparece primeiro como base fundamental.
Quem acompanhou o mercado desde o lançamento do meu livro A Tokenização do Dinheiro ou minhas análises anteriores já deve ter ouvido falar sobre a transformação que as stablecoins representam. Elas são mais do que simples produtos ligados às criptomoedas; constituem a evolução do próprio conceito de dinheiro, convertendo-o em uma camada programável, interoperável e nativamente digital.
O relatório mencionado deixa isso claro ao mostrar que o ecossistema brasileiro de stablecoins lastreadas no real conta com uma diversidade considerável, dividida em diferentes abordagens, blockchains e modelos operacionais. Há emissores cuja atuação está voltada para o varejo cripto, outros focados em transações de pagamentos internacionais, alguns que trabalham na integração com bancos tradicionais e vários que miram diretamente a liquidação institucional e a tokenização de ativos reais.
Minha análise desse mercado vem de mais de seis anos de acompanhamento. Nos primeiros vídeos que publiquei sobre stablecoins no YouTube, o cenário institucional, prático e regulatório ainda era bastante incipiente e confuso. Poucos dos participantes daquela fase inicial conseguiram sobreviver ao avanço do setor.
Hoje, a maturidade e aceitação dessas moedas digitais são incomparavelmente superiores. A visão de que stablecoins são mais que simples tokens, e sim uma infraestrutura vital para liquidação on-chain, começa a se firmar de forma concreta. De fato, sem uma forma de dinheiro realmente digital, todos os processos de tokenização ficam menos eficientes, dificultando liquidação, composição de serviços, automação e interoperabilidade, que acabam dependendo de soluções externas.
Uma outra mudança importante refere-se ao propósito das stablecoins em reais, que atualmente incorpora mais de um viés, diferente do principal foco inicial, que era a dolarização ou hedge contra moedas locais frágeis.
Naquela época, a lógica era simples: em economias com moedas locais instáveis, havia bastante procura por moedas digitais lastreadas no dólar, e as stablecoins facilitavam o acesso com menos barreiras burocráticas. Este foi e continua sendo o caso para os tokens em dólar no Brasil. Contudo, as stablecoins em real têm outra natureza: elas não buscam substituir o real, mas sim representá-lo de forma tokenizada em uma infraestrutura inovadora.
Muitos questionam a necessidade de stablecoins em reais em meio à existência do PIX, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. A resposta está na diferença fundamental entre as infraestruturas envolvidas. O PIX opera dentro do sistema tradicional brasileiro de pagamentos, enquanto as stablecoins circulam em blockchains públicas ou permissionadas, ou seja, utilizam trilhos tecnológicos distintos, estruturas completamente diferentes e, em muitos casos, objetivos e funções específicas que não se sobrepõem.
Essa discussão desloca o foco da moeda propriamente dita para a infraestrutura que a suporta — os “trilhos”, como são chamados tecnicamente. O tema abrange não só a emissão do dinheiro, mas também sua distribuição, liquidação, integração bancária, interoperabilidade, conformidade regulatória e acesso aos fluxos financeiros que, provavelmente, serão amplamente tokenizados nos próximos anos.
Escrevi sobre esse tema no artigo Uma stablecoin para chamar de minha, publicado em 2024, no qual abordo stablecoins como peças estratégicas no sistema financeiro global. Elas não são apenas instrumentos de pagamento, mas elementos centrais da infraestrutura.
O Brasil, em particular, aparenta estar bem posicionado para essa transformação. A combinação do PIX, APIs bancárias, uma regulação relativamente avançada e uma comunidade cripto ativa criou um ambiente único, no qual as infraestruturas tradicionais e as baseadas em blockchain começam a se fundir gradualmente. Isso explica por que o ecossistema brasileiro tem desenvolvido uma densidade maior do que muitos esperavam.
Empresas como Transfero, Braza, Núclea, Liqi, MB, SmartPay, Celo, AmFi, Avenia, entre outras, operam com abordagens bastante variadas. Em vez de um mercado dominado por um único emissor, está surgindo uma rede distribuída, na qual múltiplas propostas coexistem e se complementam.
Essa pluralidade é normalmente sinal de que a infraestrutura vigente está respondendo a demandas reais do mercado.
O lançamento do DREX contribuiu significativamente para o amadurecimento dessa discussão. No processo, tornou-se evidente que a digitalização da moeda brasileira talvez não dependa exclusivamente de uma CBDC (moeda digital de banco central) operacional completa. O setor privado assumiu protagonismo e acelerou essa transformação por conta própria.
Embora as stablecoins em real ainda estejam em fase inicial, o Brasil já compreendeu um ponto relevante: a tokenização ampla da economia nacional dificilmente ocorrerá sem uma camada monetária nativamente on-chain. Assim, as stablecoins em real deixam de ser meros produtos do mercado cripto para se integrar de maneira fundamental à própria infraestrutura financeira digital do país.
Continuamos nesse caminho de aprendizado e difusão de conhecimento.
Gustavo Cunha é fundador da Fintrender.com



