Filme sobre Bolsonaro enfrenta denúncias de más condições no set
O longa “Dark Horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu um aporte de R$ 61 milhões do empresário Daniel Vorcaro, proprietário do banco Master.
No entanto, meses antes desse investimento, a produção já havia sido alvo de queixas envolvendo alimentos estragados, refeições inadequadas para jornadas longas, atrasos nos pagamentos e revistas pessoais consideradas abusivas durante as filmagens realizadas em São Paulo.
Essas denúncias estão detalhadas em um relatório produzido pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED/SP), ao qual este conteúdo teve acesso integral. O documento agrega 15 registros formais feitos pelos trabalhadores por meio do canal Reclame SATED.
Os relatos envolvem figurantes brasileiros, artistas com e sem carteira profissional (DRT) e técnicos que participaram da produção do filme no estado, evidenciando uma discrepância no tratamento recebido pelas equipes estrangeiras em comparação aos trabalhadores nacionais.
Segundo o relatório, enquanto o elenco principal dispunha de café da manhã e almoço em sistema self-service, os figurantes tinham acesso apenas a um kit lanche contendo pão com frios, uma maçã, paçoca e suco, quantidade insuficiente para jornadas superiores a oito horas.
Uma das reclamações específicas refere-se à oferta de comida estragada em 30 de outubro de 2025, com mensagens encaminhadas ao sindicato por meio do WhatsApp. Outras denúncias destacam atrasos nos pagamentos, valores abaixo do mercado, contratações informais feitas por grupos de WhatsApp e a realização de pagamentos em dinheiro sem emissão de notas fiscais.
Além disso, houve relatos informando que alguns figurantes eram obrigados a arcar com R$ 10 para se deslocar até as locações, quantia paga à parte ou descontada do cachê no final do dia.
O documento ainda denuncia episódios constantes de assédio moral e condições inadequadas no ambiente de trabalho, incluindo a agressão física sofrida por um figurante, que registrou boletim de ocorrência e realizou exame de corpo de delito.
Outra situação gravemente apontada foi a realização de revistas pessoais consideradas invasivas, com seguranças tocando partes íntimas e seios dos figurantes logo na entrada das locações.
O relatório também menciona a utilização de equipe técnica estrangeira sem o devido recolhimento das taxas previstas pela Lei nº 6.533/78, que rege as profissões artísticas e técnicas no audiovisual, além da ausência de contratos encaminhados para obtenção do visto obrigatório pelas entidades sindicais.
O SATED/SP esclareceu que não faz acusações diretas contra a produção, ressaltando que todas as denúncias serão apuradas pelas autoridades competentes, garantindo o direito ao contraditório e à ampla defesa das partes envolvidas.
A produtora GOUP Entertainment, responsável por “Dark Horse”, foi contactada para comentar as reclamações, mas não respondeu até o momento.
Intercâmbio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre financiamento
Recentemente, mensagens e áudios entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro vieram a público, revelando o repasse de R$ 61 milhões para a realização do filme, entre fevereiro e maio de 2025, através de um fundo localizado nos Estados Unidos associado a aliados de Eduardo Bolsonaro.
Em uma das mensagens de setembro de 2025, Flávio expressa preocupação com o impacto dos atrasos nos pagamentos, afirmando que o projeto estava em um momento delicado e o atraso poderia comprometer o propósito do filme.
O senador retomou o contato semanas depois, indicando que a equipe estava no limite e, em certo momento, convidou Vorcaro para um jantar com o ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo, e protagonista do filme.
Questionado, Flávio Bolsonaro confirmou que o financiamento foi feito com recursos privados e negou qualquer irregularidade, chegando a divulgar um vídeo em que admite ter solicitado a verba, no entanto, sem manter relações impróprias com Vorcaro.
Por sua vez, a produtora GOUP Entertainment negou veementemente ter recebido quaisquer valores de Daniel Vorcaro, do Banco Master, ou de empresas sob seu controle. A empresa repudiou tentativas de associar a produção a fatos externos desprovidos de comprovações financeiras ou contratuais.
Orçamento recorde na produção
O montante de recursos envolvidos na produção de “Dark Horse” surpreendeu o setor audiovisual nacional, ultrapassando o valor investido em produções brasileiras recentes de destaque internacional.
Para efeito de comparação, o filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, que recebeu quatro indicações ao Oscar de 2026, teve orçamento de R$ 28 milhões distribuídos entre Brasil, França, Alemanha e Holanda.
Mesmo com prêmios importantes como melhor direção e melhor ator em Cannes, o orçamento deste longa foi menos da metade do que o supostamente investido por Vorcaro no filme sobre Bolsonaro.
Essa disparidade despertou reações dentro do setor, principalmente pelo fato de “Dark Horse” ainda buscar distribuição internacional, com negociações em andamento mesmo após rumores sobre uma possível estreia em setembro de 2026.
O filme foi dirigido por Cyrus Nowrasteh, escrito em colaboração com Mark Nowrasteh e com argumento de Mário Frias. Trata-se de um thriller político focado na campanha presidencial de 2018 e no atentado sofrido por Jair Bolsonaro no período.
O elenco conta com nomes como Esai Morales, Lynn Collins, Camille Guaty — que interpreta Michelle Bolsonaro — e Jeffrey Vincent Parise.



