Renda crescente, mercado de trabalho vigoroso e endividamento: por que o consumo continua forte mesmo com juros elevados?
Os gastos das famílias ainda impulsionam a expansão econômica, mas cresce a apreensão sobre a continuidade desse ritmo diante do aumento do crédito e do endividamento.
Por Isabela Bolzani, g1 — São Paulo
Em um cenário econômico brasileiro que desafia expectativas, os juros básicos começaram a recuar após atingirem o maior nível em duas décadas, mesmo com a população convivendo com níveis inéditos de endividamento e inadimplência.
Embora os economistas prevejam uma retração da atividade econômica já no começo de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou, neste primeiro trimestre, um crescimento de 1% frente ao trimestre anterior e de 1,7% em comparação ao mesmo período do ano anterior, puxado pelo aumento do consumo das famílias.
Especialistas apontam que essa dinâmica é explicada pelo aquecimento do mercado de trabalho aliado ao crescimento da renda, graças tanto ao emprego formal quanto a ações públicas de transferência de renda.
A desocupação alcançou 5,8% no trimestre encerrado em abril, o menor índice para esse período desde o início da série histórica, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Simultaneamente, o rendimento real habitual dos trabalhadores chegou a R$ 3.732, apresentando alta de 5,3% em comparação com o ano anterior.
Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE, destacou que a permanência das pessoas no mercado de trabalho é fundamental para sustentar o consumo, fazendo com que a economia reaja aos efeitos adversos, como juros altos, com certa resiliência.
Além de um mercado de trabalho robusto, políticas públicas como o aumento real do salário mínimo, a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e o programa Desenrola 2.0, que auxiliou na renegociação de dívidas, contribuíram para manter o poder aquisitivo da população.
André Sacconato, assessor econômico da FecomercioSP, ressaltou que sucessivas transferências de renda ao longo do tempo são diretamente consumidas em itens essenciais como alimentos, vestuário e serviços.
Outro fator por trás desse padrão de consumo é a ampliação da digitalização da economia, que tem impulsionado o setor de serviços em áreas como tecnologia, internet e telefonia. De acordo com Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do Ibre-FGV, segmentos como bares, restaurantes e turismo também estão contribuindo para a alta do consumo.
Ela observa como inusitado o avanço persistente dos bens duráveis, como carros importados, em especial híbridos e elétricos, mesmo em um contexto de juros altos, enquanto os bens não duráveis focam sobretudo em itens essenciais.
Desafios do aumento do consumo: crescimento das dívidas das famílias
Apesar dos sinais positivos, especialistas alertam para o crescente comprometimento das famílias com dívidas. Dados recentes do Banco Central indicam que o endividamento atingiu 49,8% em março, representando uma alta de 0,8 ponto percentual em relação a igual período do ano passado.
Sacconato destaca a pressão sobre a classe média, que sustenta seu consumo por meio do crédito cada vez mais oneroso.
O levantamento do BC aponta ainda para uma elevação significativa da inadimplência em quase todas as modalidades de crédito destinadas a pessoas físicas, chegando a 7,2% nas linhas de crédito com recursos livres, onde bancos fixam taxas e condições.
A inadimplência, que mede o percentual de operações de crédito com atraso superior a 90 dias contra o saldo total, cresceu 1,2 ponto percentual em relação a abril de 2025, quando estava em 6%.
Segundo Sacconato, a forma atual de consumo, principalmente entre a classe média, não se sustenta mais como antes. O modelo baseado em transferências de renda eleva o endividamento e a inadimplência, forçando a manutenção dos juros altos por um prazo maior.
Perspectivas do consumo para o restante de 2026
Mesmo com a expectativa de juros e inflação elevados na sequência do ano, especialistas acreditam que o consumo das famílias continuará crescendo em 2026.
Juliana Trece comenta que a projeção do Ibre-FGV indica uma alta de 2,2% no consumo total das famílias até o fim deste ano, acima da elevação de 1,3% registrada em 2025.
Ela lembra que o Banco Central deve seguir com uma postura cautelosa em relação a cortes dos juros, enquanto o mercado de trabalho aquecido ajuda a sustentar a atividade. Além disso, por se tratar de um ano eleitoral, não se pode descartar eventuais novos incentivos a partir de programas de transferência de renda.



