A Meta tentou silenciá-la. Agora ela está processando a empresa
Sarah Wynn-Williams, ex-executiva de políticas públicas do Facebook, está movendo uma ação judicial contra a Meta após a empresa tentar impedir que ela falasse publicamente sobre seu livro.
A ex-funcionária do Facebook, Wynn-Williams, está proibida há mais de um ano de comentar publicamente suas memórias que expõem detalhes controversos sobre sua experiência na empresa. Apesar disso, seu livro alcançou o primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times.
Agora, ela abriu um processo em um tribunal federal dos Estados Unidos alegando que tanto o procedimento arbitral iniciado pela Meta para barrar a divulgação de seu livro quanto o contrato que a empresa tenta fazer valer não têm validade.
A obra intitulada Careless People: A Cautionary Tale of Power, Greed, and Lost Idealism (“Pessoas Descuidadas: Uma História de Advertência sobre Poder, Ganância e Idealismo Perdido”) contém graves acusações contra executivos da antiga Facebook, incluindo a alegação de que a companhia teria considerado entregar dados de milhões de usuários chineses e americanos ao Partido Comunista Chinês para garantir acesso ao mercado chinês.
Wynn-Williams também relata no processo ter sido vítima de assédio sexual por parte de seus superiores, Joel Kaplan, atual presidente de assuntos globais da Meta, e Sheryl Sandberg, ex-diretora de operações da empresa.
Em nota, o porta-voz da Meta, Andy Stone, afirmou que a ex-funcionária estaria tentando usar o processo judicial para promover a venda do livro, apesar de uma decisão arbitral determinar que ela violou o acordo que firmou com a empresa ao aceitar um acordo financeiro substancial anos atrás. Stone já havia qualificado o livro como “falso e difamatório”. Um representante de Sandberg preferiu não comentar.
Após o lançamento do livro em março de 2025 pela editora Flatiron Books, um árbitro determinou que Wynn-Williams deveria suspender qualquer declaração depreciativa, crítica ou prejudicial à Meta ou a seus colaboradores, sustentando a alegação de violação da cláusula de não difamação do acordo firmado na época do desligamento, em 2017.
A autora tenta anular essa ordem arbitral, encerrando o processo de arbitragem e invalidando o acordo de desligamento. Além disso, busca indenização por danos financeiros decorrentes da queda nas vendas de seu livro e da impossibilidade de realizar palestras remuneradas.
De acordo com dados da empresa de monitoramento de vendas Circana BookScan, Careless People já comercializou mais de 130 mil exemplares impressos nos Estados Unidos.
No mês anterior, Wynn-Williams permaneceu em silêncio durante sua participação no Hay Festival, evento literário e artístico no País de Gales, em um painel sobre tecnologia digital e políticas públicas, abstendo-se de mencionar o livro ou qualquer outro assunto. Segundo o processo, a Meta enviou um representante ao festival e solicitou ao árbitro aplicação de sanções contra a ex-executiva por sua presença no evento.
A Meta, conforme consta na ação, busca indenizações e penalidades superiores a US$ 50 mil para cada suposta infração ao acordo de desligamento.
Assédio sexual no ambiente corporativo
Wynn-Williams acusa Sheryl Sandberg de criar um ambiente de trabalho pouco profissional, citando episódios que envolviam pedidos incomuns, como solicitações a uma assistente para adquirir lingeries caras.
Durante grande parte de sua trajetória no Facebook, Wynn-Williams reportava-se diretamente a Joel Kaplan. Em seu livro, ela descreve que ele fazia piadas de teor sexual via e-mail, questionava aspectos de seu corpo, chegou a fazer contato físico impróprio em eventos corporativos e referia-se a si próprio como seu “sugar daddy”.
A ação judicial relata ainda que a empresa realizou uma apuração interna sobre as condutas de Kaplan enquanto Wynn-Williams ainda estava na companhia. Ela afirma que, após Kaplan acusá-la de provocar a investigação, começou a sofrer retaliações, com redução de suas responsabilidades.
Na tentativa de se proteger, ela reuniu documentos para entregar às autoridades internas, mas foi demitida antes de conseguir apresentar as evidências, conforme descrito no processo.
A Meta já declarou que realizou investigação sobre as denúncias envolvendo Kaplan, entrevistando diversas testemunhas, e concluiu que ele não tinha cometido irregularidades.
Acordo de desligamento e alegação de coação
Após sua demissão, Wynn-Williams alega ter sido coagida a assinar um acordo de desligamento que continha cláusulas de não difamação e arbitragem obrigatória. Segundo ela, a Meta condicionou o reembolso de centenas de milhares de dólares em despesas corporativas já aprovadas, incluindo viagens de Mark Zuckerberg e outros executivos, à assinatura do documento.
A autora afirma que a companhia reembolsou apenas uma pequena parte desses valores prometidos.
No ano seguinte à assinatura desse acordo, o Facebook anunciou a suspensão da exigência de arbitragem para casos envolvendo assédio sexual, classificando a medida como uma mudança significativa para o setor.
Em 2022, a Califórnia adotou a “Lei Chega de Silêncio”, proibindo que empresas utilizem acordos de desligamento para impedir que pessoas denunciem ilegalidades no ambiente de trabalho.
O conselho da Meta declarou que a companhia segue a legislação estadual, afirmando publicamente que seus funcionários não são obrigados a firmar contratos que impeçam discussões sobre condutas internas.
Com base nessas declarações, Wynn-Williams entendeu que poderia se pronunciar livremente e fez denúncias como informante para a Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA e o Departamento de Justiça.
Conflito legal sobre lançamento do livro
Logo após o lançamento de seu livro, a Meta enviou uma carta à editora Macmillan alertando que poderia processá-la por difamação, pois o livro não havia sido previamente compartilhado para revisão nem passou por checagem de fatos sob o controle da empresa.
A Flatiron Books garantiu que o livro foi minuciosamente revisado e afirmou apoio à sua publicação.
Em seguida, a Meta requereu arbitragem e uma medida provisória para impedir Wynn-Williams e seus colaboradores de criticar a empresa ou promover o livro, com o árbitro concedendo uma ordem temporária que permanece em vigor até hoje.
Este conteúdo foi traduzido do inglês por uma equipe dedicada e é fruto da parceria com um dos maiores jornais internacionais no setor de negócios, finanças e economia.



