No Gramado Summit, inteligência artificial é destaque, mas o humano permanece essencial
Startups brasileiras investem em tecnologia própria para otimizar custos, proteger informações e atender ao mercado local
A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante e tornou-se o foco principal das discussões no mercado brasileiro. Na primeira jornada da 9ª edição do Gramado Summit 2026, realizado na Serra Gaúcha, praticamente todos os debates abordaram um tema comum: de que forma empresas e profissionais podem utilizar a IA para aumentar a produtividade, sem perder o toque humano no processo.
Diversos painéis exploraram temas como automação, agentes inteligentes e transformação digital, reforçando a ideia de que a IA deve assumir as atividades operacionais e burocráticas, liberando as pessoas para se concentrem em estratégias, relacionamentos e decisões.
Grupo busca democratizar a IA para pequenas e médias empresas
Um dos destaques do evento foi a AI Brasil, iniciativa que tem como missão facilitar a implementação da inteligência artificial em pequenas e médias empresas (PMEs). Esse ecossistema conta com cerca de 10 mil participantes e integra mais de 80 companhias em projetos voltados à tecnologia.
De acordo com Pedro Chiamulera, fundador da AI Brasil, o propósito é tornar a IA mais acessível e funcional para negócios que ainda enxergam essa tecnologia apenas como ferramenta para conversas ou geração de texto.
“A IA ainda é vista como brincadeira ou apenas como um recurso comunicativo. Contudo, ela pode organizar processos, elevar a produtividade e revolucionar o modo de operar das empresas”, destacou.
A organização aposta em eventos, encontros presenciais, networking e treinamentos práticos, evitando cursos acadêmicos tradicionais. O enfoque está no diagnóstico e capacitação prática dos empresários.
Na prática, o objetivo é mostrar como os empreendedores podem usar ferramentas simples já disponíveis para organizar dados e aprimorar a tomada de decisões. Por exemplo, ao gravar reuniões, é possível inserir o conteúdo em plataformas de IA para identificar problemas e oportunidades.
Outro ponto relevante da AI Brasil é combater o receio relacionado à segurança de dados. Conforme ressaltou Chiamulera, muitas organizações já contam com colaboradores utilizando IA sem diretrizes claras, o que pode comprometer a segurança da informação.
“As pessoas já usam essas ferramentas dentro das empresas, muitas vezes sem organização. O papel da liderança é orientar como empregar a IA de forma segura”, afirmou.
Startup brasileira desenvolve IA própria para competir com gigantes
Outro nome que ganhou atenção foi a paulista LUA Vision, que criou um modelo de inteligência artificial próprio com o intuito de concorrer com plataformas como ChatGPT, Gemini e Claude.
Fundada em 2026 com investimento inicial de R$ 100 mil, a empresa projeta faturar R$ 5 milhões ainda neste ano e já possui 20 clientes corporativos.
Segundo o CEO David Kang, o diferencial está em o modelo ter sido treinado especialmente para contextos brasileiros, com foco em áreas tributária, jurídica e empresarial.
“Não faz sentido usar uma IA americana genérica para resolver questões tributárias brasileiras. Nosso modelo compreende a realidade do país”, explicou.
A empresa investiu três anos no desenvolvimento de um modelo de linguagem de larga escala (LLM), pensado para mercados emergentes, como o Brasil e países africanos.
Paulo Câmara, CTO da startup, destacou que o principal desafio foi reduzir as chamadas “alucinações” da IA, momentos em que o sistema gera informações incorretas.
“Hoje, temos casos de IA criando jurisprudência falsa e erros em diagnósticos médicos. Nosso modelo foi projetado para reduzir esses erros”, disse.
Entre as aplicações apresentadas estão automação na implantação de sistemas ERP, criação de cursos universitários, análises tributárias e suporte hospitalar. Um dos produtos consegue gerenciar diversos agentes autônomos para implementar sistemas corporativos como SAP e Oracle, diminuindo prazos e custos.
A LUA Vision também desenvolve uma versão do sistema que funcionará diretamente no celular, inclusive offline, inicialmente para 5 mil usuários.
Ferramenta de IA para consultórios médicos
No espaço dedicado a startups do programa Inova RS, do governo do Rio Grande do Sul, a reportagem conheceu a VTIX.AI, criada em Faxinal do Soturno.
A startup lançou uma solução exclusiva para médicos, capaz de gravar consultas presenciais e online, transformando automaticamente os diálogos em prontuários organizados para uso futuro. Simone Morales, gerente de produtos, conta que a proposta é diminuir a burocracia para que os profissionais possam oferecer atendimentos mais personalizados.
“O médico vê muitos pacientes e a memória é limitada. Nossa plataforma organiza o histórico, permitindo entender rapidamente o contexto antes da próxima consulta”, explicou.
O sistema também coleta informações sobre hábitos de vida, histórico familiar e relacionamentos dos pacientes. Disponível há cerca de três meses, já conta com cerca de 100 usuários e funciona por meio da assinatura mensal, para médicos ou clínicas.
A VTIX.AI foi criada pelos sócios Eduardo Ceolin e João Brasil, profissionais de tecnologia que identificaram a necessidade observando familiares da área médica. A expectativa é alcançar um faturamento mensal de R$ 100 mil. O Gramado Summit é uma oportunidade para ampliar o alcance comercial e buscar parcerias.



