Mundo inicia nova fase de juros elevados, e Brasil pode sentir o impacto, afirma economista Pessoa
O economista Samuel Pessoa, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do BTG Pactual, alertou para uma nova etapa global em que os juros serão estruturalmente mais altos, cenário que pode trazer dificuldades para economias como a brasileira, que dependem de fontes externas de financiamento.
Após decisões recentes do Comitê de Política Monetária (Copom) no Brasil e do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos, Pessoa destacou que, apesar da leve redução de 0,25 ponto percentual na taxa Selic e da manutenção dos juros americanos, as mensagens indicam um movimento de cautela e uma transição para patamares superiores dos índices de juros em longo prazo.
Em entrevista ao programa Macro em Pauta, da EXAME, Pessoa explicou que o juro real de equilíbrio, isto é, a taxa neutra após o impacto da pandemia, deve se situar em 1,5 ponto percentual acima dos níveis previamente estabelecidos antes de 2020.
Juros elevados nos EUA e impacto global
Nos Estados Unidos, segundo o economista, a taxa real neutra deve ficar próxima de 1,5%. Com a meta de inflação em 2%, isso projeta uma taxa básica americana em torno de 3,5% no médio prazo. Além disso, o privilégio até então concedido aos títulos do Tesouro americano, considerados os mais seguros do mundo, está começando a perder força.
Anteriormente, em situações de crise, os investidores costumavam migrar para esses ativos, permitindo ao governo captar recursos com juros relativamente baixos, mesmo diante de uma dívida elevada. Porém, atualmente, esse cenário está mudando, e os investidores exigem remunerações maiores para financiar o Tesouro americano, especialmente nos títulos de prazos mais longos, o que pode se refletir em um aumento do prêmio pela duração desses papéis.
Deterioração fiscal e consequências
Pessoa atribui essa nova realidade a uma combinação de elementos, incluindo a inflação persistente no setor de serviços, a rigidez no mercado de trabalho americano e uma piora fiscal crescente. Ele destaca que o problema fiscal dos Estados Unidos deixou de ser um tema secundário para se tornar um fator central na dinâmica macroeconômica global.
A crescente dívida, somada à diminuição do “privilégio exorbitante” dos títulos do Tesouro, eleva o custo para o governo renovar suas obrigações financeiras, o que provavelmente exigirá um ajuste fiscal mais intenso nos próximos anos. Contudo, o economista ressalta que, comparado a outros países desenvolvidos, os EUA continuam tendo uma margem tributária relativamente ampla, já que a carga tributária americana é consideravelmente inferior à de Europa e Brasil.
O impacto dessa alta estrutural dos juros americanos reverbera globalmente, pois os títulos do Tesouro dos EUA servem como referência para o custo do capital no mundo inteiro. Portanto, qualquer elevação nessa taxa tende a influenciar negativamente os mercados emergentes, que dependem mais fortemente de poupança externa.
“Essa é uma notícia ruim, especialmente para países como o Brasil, que importam poupança”, alerta Pessoa. Com o aumento global do custo do capital, os países que precisam de financiamento externo para investir enfrentarão custos maiores para captar esses recursos.
Perspectivas para os juros no Brasil
No contexto brasileiro, o cenário também pode se tornar mais desafiador. Samuel Pessoa aponta que o recente corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic provavelmente marca o fim do ciclo de reduções no curto prazo.
Ele informa que a expectativa do BTG para a inflação ao final de 2026 subiu de 4,1% para 5,3%, refletindo tanto choques externos, como os preços do petróleo e o fenômeno climático El Niño, quanto fatores internos. Entre os internos, destacou o aumento nos gastos do governo e medidas de crédito que estimulam a demanda.
De acordo com ele, quando há um choque de demanda em uma economia já operando próxima da capacidade plena, o crescimento econômico acaba sendo limitado enquanto a inflação sofre maior pressão.
Assim, para Pessoa, o Banco Central brasileiro deverá manter as taxas estáveis até que os resultados eleitorais sejam definidos, aguardando também maior clareza sobre o regime econômico que será adotado no próximo governo.
“O Banco Central interrompeu a queda das taxas e deve aguardar os efeitos das eleições”, conclui.



