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Vlogs De Demissão Viralizam E Exigem Cuidados Importantes

Vlogs De Demissão Viralizam E Exigem Cuidados Importantes

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‘Vlogs’ de demissão viralizam, mas exigem atenção na hora de compartilhar

Nos últimos dias, vídeos conhecidos como “vlogs de demissão”, nos quais trabalhadores mostram o dia em que são desligados de suas empresas, vêm ganhando enorme popularidade nas redes sociais. Essas publicações capturam um momento delicado da vida profissional e têm atraído milhões de visualizações.

Victoria Macedo, de 28 anos, é um exemplo marcante. Ela compartilhou no TikTok um registro do seu desligamento da Natura que ultrapassou 1,5 milhão de visualizações. Essa repercussão elevou seu perfil como criadora de conteúdo e resultou em convites para entrevistas de trabalho, mesmo antes de atualizar seu currículo ou portfólio.

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Formada em administração e cursando publicidade e propaganda, Victoria iniciou sua carreira no mercado corporativo aos 16 anos, com experiências em bancos e, mais recentemente, na Natura. Ela entrou na empresa em 2024 como estagiária, foi efetivada após oito meses e atuou no planejamento comercial até a reestruturação que culminou em sua demissão, depois de quase dois anos de trabalho.
Victoria já produzia conteúdo sobre sua rotina profissional no TikTok, hábito que ganhou força após sua efetivação. Inclusive, pelo conhecimento que tinha das câmeras, participou do programa de influenciadores internos da Natura, no qual empregados promovem a marca. Apesar disso, decidiu gravar o momento da demissão para explicar aos seus seguidores o motivo do fim dos conteúdos relacionados ao dia a dia na empresa. O vídeo viralizou rapidamente, pois tocou um tema sensível e universal, segundo ela, mostrando um episódio difícil, porém real, da vida profissional que raramente aparece nas redes.

Esse fenômeno não é isolado. Buscar por “vlog de demissão” no TikTok revela diversos vídeos que somam milhões de visualizações. Ainda assim, especialistas destacam a necessidade de cautela ao divulgar esse tipo de conteúdo, pois a exposição pode prejudicar a trajetória profissional.

Raquel Nunes, líder de RH na HUG, explica que o problema não é a demissão em si, mas a forma como ela é mostrada. Vídeos que expõem conflitos, críticas diretas ou informações internas despertam preocupação entre recrutadores, enquanto conteúdos que focam nos aprendizados podem fortalecer a imagem do profissional. Selecionadores observam a maturidade do candidato ao comunicar essa fase adversa, valorizando sua capacidade de enfrentar situações difíceis sem prejudicar terceiros ou revelar segredos.

Com as redes sociais cada vez mais presentes, cada publicação contribui para a construção ou desgaste da marca pessoal. Vídeos sobre demissão podem revelar resiliência e autoconhecimento, assim como impulsividade. Victoria menciona que ao gravar seus vídeos tomou cuidado para não mostrar colegas, ambientes ou dados confidenciais, mantendo o foco em sua própria experiência e desaconselhando críticas à empresa.

Como a palavra ‘demissão’ influencia o engajamento

Outro caso recente é o da designer mineira Thaís Borges, 26 anos, conhecida como Thaís do Millenium. Após uma década de trabalho com carteira assinada, sendo três anos e meio numa multinacional, sentiu o impacto da sua primeira demissão em massa. Apesar do baque emocional, ela viu na situação uma oportunidade para ampliar sua presença digital, registrando o momento da dispensa e a reação do marido. O vídeo viralizou com mais de meio milhão de visualizações.

Thaís já produzia conteúdo sobre carreira há quatro anos, mas o alcance cresceu muito após a demissão. Ela passou a compartilhar etapas da recolocação profissional, como atualização de currículo e portfólio, utilizando a palavra “demissão” estrategicamente para aumentar o engajamento e ajudar a desmistificar o tema, até então encarado com certo preconceito. Essa abordagem tem ajudado a quebrar tabus e gerado convites para processos seletivos, mesmo sem candidatura formal.

Entendendo o fenômeno dos vlogs de demissão

A pesquisadora e professora da USP, Issaaf Karhawi, analisa esse fenômeno relacionando-o à mistura crescente entre vida pessoal e pública nas redes sociais. As pessoas somam elementos do trabalho, lazer e intimidade numa narrativa compartilhada digitalmente. Nessa lógica, o TikTok se destaca por formatar conteúdos autênticos e menos produzidos, como os vlogs curtos sobre rotina profissional, que incorporam também a experiência da demissão.

Esses vídeos servem como uma “contra-narrativa” à tradicional exaltação de sucessos vista em redes como LinkedIn e Instagram. Expor momentos difíceis cria uma conexão emocional com o público, pois contrasta com os padrões de vitória que dominam outras plataformas. Conteúdos com carga emocional tendem a viralizar, sendo amplificados pelos algoritmos.

Karhawi lembra que essa moda de compartilhar demissões já ocorreu em 2024, especialmente em setores como tecnologia durante grandes ondas de cortes de pessoal. Atualmente, esse tipo de conteúdo virou um subgênero consolidado no TikTok, reunindo pessoas com histórias similares.

Porém, a pesquisadora alerta que a viralização não garante recolocação em setores tradicionais, pois cada mercado reage de forma diferente. Enquanto áreas de comunicação podem aceitar melhor esse tipo de exposição, setores como agronegócio ou farmacêutico tendem a ser mais resistentes. Além disso, a construção de uma carreira digital sólida demanda tempo, planejamento e consistência, não se resumindo a um único vídeo de sucesso.

Cuidados necessários ao expor a demissão

Raquel Nunes destaca que compartilhar sentimentos pessoais e aprendizados é válido, mas expor a empresa, falar de detalhes internos ou envolver nomes e gestores pode ser prejudicial para a reputação e empregabilidade. Ela recomenda evitar publicações feitas no calor do momento e refletir sobre como o conteúdo será interpretado por recrutadores.

Além da imagem, há também riscos jurídicos. A advogada trabalhista Isabel Cristina alerta que a liberdade de expressão do trabalhador tem limites, principalmente quando envolve a empresa. Gravar dentro da empresa ou mostrar informações confidenciais pode infringir cláusulas contratuais e regras de compliance, abrindo espaço para responsabilização por danos à reputação da companhia.

Conteúdos com tom irônico, ofensivo ou crítico podem ser considerados lesivos à honra do empregador, o que pode resultar em pedidos de indenização. Isso é ainda mais delicado quando o vídeo é publicado durante o aviso prévio ou o processo de desligamento.

Quando a demissão pode ser justa causa

Em situações onde o empregado publica conteúdo ofensivo enquanto ainda está vinculado à empresa, o advogado Cid de Camargo Júnior explica que a dispensa comum pode ser revertida para demissão por justa causa, caso a empresa comprove a gravidade da conduta. A decisão final cabe à Justiça, pois essa medida é considerada a mais severa da legislação trabalhista. Mesmo após o término do vínculo, a empresa pode requerer indenização por danos.

A legislação atual, embora não cite diretamente as redes sociais, aplica dispositivos da CLT para o contexto digital, como:

  • ato que prejudique a honra ou imagem do empregador;
  • mau procedimento;
  • indisciplina ou insubordinação.

Assim, a Justiça já reconhece que o comportamento nas redes influencia a relação de trabalho.

Fonte

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