Empresa gaúcha busca faturar R$ 1 bilhão com produtos premium como maçãs, queijos e vinhos
Localizada na Serra Gaúcha, a RAR é um negócio que foi além de uma simples produção agrícola. Fundada há cerca de cinco décadas, a companhia iniciou sua jornada produzindo maçãs, em um momento em que o Brasil ainda dependia das importações para atender seu mercado.
Atualmente, seu portfólio abrange uma variedade diversificada que inclui queijos do tipo grana, vinhos, embutidos e azeite, agregando valor e qualidade aos seus produtos. A empresa, originada pelo empreendedor Raul Anselmo Randon, fundador também da renomada Randoncorp, fatura atualmente aproximadamente R$ 550 milhões, estabelecendo a ambiciosa meta de alcançar R$ 1 bilhão até 2034.
Para caminhar rumo a esse crescimento, a RAR está promovendo uma reestruturação administrativa. De acordo com Sergio Martins Barbosa, presidente da companhia, o esforço é para fortalecer a governança e ampliar a capacidade de gestão, o que é essencial para sustentar os avanços recentes e alcançar a visão financeira estabelecida.
Essa reestruturação contempla a promoção de profissionais internos, como Jiovani Foiatto, que assume a diretoria da unidade de gastronomia, e Raquel Manfredi Pandolfo, que passa a integrar a diretoria executiva. O objetivo é preparar a operação para crescer de forma consistente, mantendo a excelência da qualidade nos produtos.
A trajetória da RAR
Na década de 1970, quando cerca de 97% das maçãs consumidas no Brasil eram importadas, Raul Randon plantou os primeiros 70 hectares na cidade de Vacaria, perto de Caxias do Sul. Apesar das dificuldades iniciais, incluindo granizo e seca antes mesmo da estreia da colheita, o negócio evoluiu e hoje conta com cerca de 1.500 hectares dedicados à produção de maçãs, que representam quase metade da receita da empresa.
O diferencial da RAR não está apenas na fruticultura, mas na diversificação promovida com o tempo. O investimento em queijos surgiu de maneira quase casual, a partir de um haras com produção leiteira limitada. Com a visão de criar produtos premium, especificamente um tipo de queijo grana, a empresa buscou auxílio técnico na Itália e contratou especialistas internacionais.
Como o queijo é produzido com leite cru, a qualidade da matéria-prima era um desafio, pois o padrão no Brasil não atendia às exigências necessárias. A solução encontrada foi inovadora: importaram vacas dos Estados Unidos e estruturaram uma produção própria que hoje gera cerca de 50 mil litros de leite diariamente, integralmente destinados à fabricação do queijo.
Crescimento focado em qualidade, não em volume
A estratégia de diversificação seguiu com a produção de vinhos, iniciada para celebrar eventos familiares e posteriormente expandida para o comércio, com diversos rótulos de vinhos, espumantes e também importados. Logo após, a empresa incorporou embutidos e azeite ao portfólio, mesmo com alguns projetos, como o cultivo de oliveiras em grande escala, não tendo sido bem-sucedidos.
O foco permanece em criar uma linha de produtos coerente e premium. Conforme explica Barbosa, a RAR não objetiva competir por volume e sim pela qualidade, evitando a disputa acirrada do mercado de grandes quantidades, que demanda investimentos elevados. Prefere crescer devagar e com controle, ampliando gradualmente sua distribuição.
Investimentos em logística garantem que a empresa não entre em regiões onde não possa garantir abastecimento constante. Seus produtos estão presentes em grandes centros e locais turísticos, como o litoral e Fernando de Noronha, graças a uma rede eficiente de distribuição.
Exportação, desafios internos e resiliência
A empresa atua no mercado internacional exportando maçãs para mais de 20 países, mantendo presença mesmo quando as margens de lucro não são as melhores. A exportação ajuda a equilibrar a oscilação do mercado doméstico. Nesta linha, estima-se a exportação de cerca de 10 mil toneladas de maçã para regiões da Europa e Ásia.
Por outro lado, o mercado brasileiro apresenta desafios, principalmente relacionados aos juros altos, inadimplência e aumento nos custos, que impactam também o setor premium. Apesar disso, com canais de venda bem estruturados e produtos diferenciados, a RAR consegue superar esses obstáculos.
Outro grande desafio mencionando diz respeito à cadeia produtiva do leite no Brasil, que enfrenta dificuldades estruturais e falta de incentivos semelhantes aos que existem em países como a Itália. Por isso, a empresa precisa desenvolver soluções internas para manter a qualidade exigida.
Rumo ao próximo degrau
O objetivo de atingir R$ 1 bilhão em faturamento se apoia em um planejamento de longo prazo, natural para negócios voltados ao agronegócio, onde os ciclos produtivos podem levar anos para se concretizar. No caso dos queijos, o tempo entre fabricação e venda pode chegar a 24 meses; para as maçãs, leva anos até que o pomar alcance potencial máximo de produção.
A RAR já realizou investimentos em infraestrutura, como câmaras frias e equipamentos modernos, que viabilizam esse crescimento planejado. O foco atual está na execução desse plano sem perder a essência do negócio, que envolve manter controle rigoroso da produção e uma estratégia de posicionamento clara.
Barbosa ressalta a filosofia da empresa de não concentrar todos os esforços em um único setor, pois nem todos os negócios prosperam simultaneamente, mas sempre há um que impulsiona o outro. A base desse equilíbrio está na produção agrícola, culminando em produtos que buscam ocupar um espaço específico na mesa do consumidor brasileiro: priorizando menos volume e mais valor agregado.



